A visitante coreana

É difícil para um crítico não se repetir ao falar de filmes de Hong Sang-soo. Como não se referir à proverbial simplicidade, às simetrias entre personagens e situações, às repetições, à graça dos diálogos despretensiosos ou ao supremo descompromisso com as grandes ideias? Como não dizer sempre as mesmas coisas sobre um cineasta empenhado em compor pequenas variações em torno de uma mesma melodia?

A CÂMERA DE CLAIRE traz elementos costumeiros: uma jovem em apuros, um diretor de cinema dado a bebidas e flertes, uma forasteira. Sang-soo incrementa seu namoro com o cinema francês escalando mais uma vez Isabelle Huppert. Como a Claire do título, ela inverte o papel vivido em “A Visitante Francesa”, de 2012. Agora a visitante é a coreana Manhee (Kim Min-hee), trabalhando na venda de filmes coreanos durante o Festival de Cannes. Ela é demitida do emprego sob uma vaga acusação de “desonestidade”. Enquanto ainda vagueia pelo balneário francês, Manhee conhece Claire por acaso. Claire é uma professora de música e poeta amadora que curte fazer fotos com uma polaróide. Por coincidências tipicamente sang-sooanas, são essas fotos que vão fazer Manhee compreender o que se passa entre ela, sua chefe (Chang Mi-hee) e o cineasta So Wansoo (Jung Jinyoung).

Duas frases ditas por Manhee equivalem a um manifesto do cinema de Hong Sang-soo: “É difícil fazer um filme honesto” e “Maturidade não tem nada a ver com cinema”. O filme honesto seria aquele que se apega a narrar uma situação sem adornos formais, sem espetacularização, sem nem mesmo tramas paralelas. Sang-soo se limita a filmar diálogos em planos fixos, alterados apenas pelo uso duro da lente zoom. O desdém pela maturidade se expressa na leveza e no frescor com que tudo é apresentado, à distância de toda aparente pretensão. As fotos de Claire não têm propósito definido, o festival não é visto, a empresa não parece se ocupar de nenhum negócio.

Aqui como em outros filmes do diretor, mais do que a trama importam o ritmo das conversas, o rumo inesperado que tomam, a pureza que transparece mesmo quando as intenções das palavras não são das melhores. Mais uma vez, Isabelle Huppert é o fator de estranhamento. Suas interações com os coreanos são hilariantes pela forma como todos usam a pronúncia do inglês e pelo arsenal de ênfases com que procuram afinar o entendimento.

Sang-soo nos convida a justamente afinar o entendimento com uma gente estranha, estrangeira e sem nada de muito importante para dizer. Mas se, como diz Claire, a única forma de mudar as coisas é olhando para elas de novo com calma, talvez esse filme curto e modesto possa nos ensinar alguma coisa.

2 comentários sobre “A visitante coreana

  1. . “As fotos de Claire não têm propósito definido, o festival não é visto, a empresa não parece se ocupar de nenhum negócio.” MUITO BOM!!!! já sei que vou adorar!

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