Pílulas 45

CapaJá está no ar, no site oficial da revista, a edição nº 61 da Filme Cultura, com um dossiê sobre cinema de gênero no Brasil e outros assuntos. A edição, como todas as anteriores, pode ser folheada no site ou baixada em PDF. Além disso, pode ser acessado um conteúdo exclusivo online, também referente aos filmes de gênero. O lançamento da revista impressa será hoje (quarta, 18), a partir de 19h, na Blooks Livraria (Espaço Itaú de Cinema, Praia de Botafogo, RJ). Haverá distribuição gratuita de exemplares.

Com UM TOQUE DE PECADO Jia Zhang-Ke muda brutalmente de gênero em relação a sua obra anterior. Corteja a violência dos filmes de artes marciais e do cinema de Tarantino. Mas o sentido é bem outro. Nas quatro histórias conectadas de maneira tênue, ele continua buscando uma representação da China contemporânea entre os choques do capitalismo e uma herança maoísta que vai virando vestígio kitsch. Resulta um cenário de transformação não concluída, galpões e plantas industriais como monstros inacabados, estradas sem alma, trânsitos sem sentido. Assim também são os personagens. Projetos de vida frustrados (amores, trabalhos, reivindicações) que acabam gerando atos de extrema violência contra corpos alheios ou os próprios. O sangue do morto sempre espirra no rosto de quem o matou. Zhang-Ke leva cada episódio a um paroxismo meio irônico. Mais que expor aqueles atos, quer comentar sobre eles. Aquele tipo de violência espetacularizada é uma ruptura não só com o estilo do diretor, mas também com uma tradição da própria China. O sangue explícito propõe uma imagem atualizada do país, um reflexo de suas novas contradições. Ao mesmo tempo, Zhang-Ke é o narrador sutil de sempre, calmamente surpreendente, e que fala menos pelos diálogos do que pela colocação de seus personagens no espaço da cena. Cada início de sequência do filme é um chamado à sensibilidade e à descoberta do espectador. Jia Zhang-Ke não é óbvio nem mesmo quando é brutal.

A FILHA DE NINGUÉM, do coreano Hong Sang-soo, não tem a mesma verve de A Visitante Francesa, mas tem o charme, a leveza e a escrita surpreeendente do diretor. Uma jovem se despede da mãe que vai morar fora e tenta se libertar do amante casado. Só isso. Mas não precisa muito mais para Sang-soo nos encantar e divertir com os diálogos inesperados, a ternura gauche que se desprende dos relacionamentos e as simetrias que ele constrói ao longo de toda a narrativa, como ecos produzidos pelo acaso. A atriz Jung Eun-Chae encarna à perfeição a espontaneidade e a graça desse estilo. Em última instância, é um filme onírico sobre a solidão, pois a história toda se passa enquanto a protagonista cochila numa biblioteca em meio à leitura de A Solidão dos Moribundos, de Norbert Elias.

Domingos Oliveira encontrou a felicidade nos seus filmes. Digo felicidade como aquela situação em que você pode relaxar e fazer o que quiser sem se preocupar com a maneira como vai ser visto. Ele lançou agora dois filmes que estão muito longe do seu melhor, mas ainda assim se nota a felicidade com que os fez. Em PAIXÃO e ACASO, o mais razoável dos dois, ele emula Woody Allen até no tipo de letra dos créditos. Não há nada de extraordinário na história da psicanalista que se apaixona simultaneamente por um rapaz e pelo seu pai (sem o saber, e isso é importante), a não ser pelos fantasmas de mãe e pai que frequentam alegremente os parentes vivos. A filmagem, como quase sempre, é mastigada como fast food e pobremente dominada pelos diálogos. Em PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER as coisas se complicam ainda mais, pois Domingos persegue o modelo de grupo-reunido-em-feriado-na-casa-de-campo-para-descobertas-revelações-queixas-etc. O roteiro aqui é uma bagunça só, com plots insustentáveis, personagens que não conseguem se afirmar e a impressão de que toda cena é armada para desaguar numa frase de efeito sobre a vida ou o amor. A cena em que Domingos e Sara Antunes brincam de duelar com “frases inteligentes” serve para mostrar o osso em torno do qual o filme é construído. O som é falho, as imagens apresentam defeitos amadores, mas nada disso parece importar muito para o modelo filósofo-feliz de Domingos Oliveira. O que mais me impressionou nos dois filmes foi a presença de Duaia Assumpção como uma cantora maravilhosamente decadente no primeiro e como uma discreta empregada no segundo. 

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