A cunhada fatal

A SERPENTE

Depois do excelente O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício, mais uma peça de Nelson Rodrigues chega ao cinema em versão estilizada, em preto e branco, explorando tanto quanto possível a teatralidade do original. A SERPENTE foi o último texto de Nelson, uma peça curta, de um único ato, que o diretor pernambucano Jura Capela desconstrói em oito pequenos atos.

No centro da cena está a figura da cunhada, que na obra de Nelson representa eterno objeto de tesão recolhido e ciúmes torrenciais. Lígia casou-se com um homem impotente e permanece virgem depois de um ano. Pensa em se matar, quando a irmã Guida lhe oferece a salvação: uma noite de sexo com seu marido Paulo. A boa ação, porém, se transforma num inferno de remorso, ciúme e culpa que leva os três personagens à ruína emocional.

Jura Capela tem raízes no memorável coletivo Telephone Colorido e é um dos autores do clássico curta Resgate Cultural – O Filme (2001). Sua verve experimental se manifesta aqui numa visceralidade permanente, seja no trabalho dos atores, seja no uso de cenários rústicos como os escombros do rompimento da barragem de Mariana (MG) em 2015 e em exteriores de Barra do Piraí.

Uma das grandes intérpretes de Nelson Rodrigues no cinema, Lucélia Santos vive as duas irmãs num tour de force de atuação e de edição com auxílio de dublês. Matheus Nachtergaele contracena com relativa discrição, mas não perde a chance de brincar com a postura cênica numa passagem quase satírica em que aproxima Paulo de Hamlet.

O jogo denso dessa dupla/trio se quebra, a certa altura, com a brusca aparição do marido de Lígia num esdrúxulo número musical com a cantora Cellia Nascimento. Percebe-se a intenção de produzir uma ruptura intencional, até porque se trata do trecho mais politicamente incorreto da peça. O efeito, contudo, me pareceu mais dispersivo que qualquer outra coisa.

A SERPENTE é mais um teste para a permanência e a resistência da obra do nosso maior dramaturgo. Resta o prazer de reencontrá-lo debaixo das camadas de significação e dos tratamentos às vezes exasperados com que se pretende renová-lo.

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