Dez vezes Nelson Rodrigues

O Canal Brasil inicia amanhã (à 0h15 de segunda para terça) a Mostra Centenário Nelson Rodrigues. Eles vão exibir 10 adaptações da obra de NR para o cinema. É um dos pratos mais fumegantes no cardápio do cinema brasileiro dos anos 1960 para cá. Nelson foi sugado pelos melodrameiros, lambido pelos pornochanchadeiros, namorado pelos cinemanovistas e cortejado pelos pós-modernos. Ismail Xavier, em seu livro O Olhar e a Cena, estudou amplamente essa “constelação desigual”, em que a diversidade de posturas e tendências, na sucessão das décadas, “conflitaram-se, marcando o cinema brasileiro”.  

A programação completa da mostra e as sinopses dos filmes podem ser consultadas no site do canal.

A partir de hoje, vou publicar aqui os textos que fiz para a apresentação de cada filme pela atriz Leona Cavalli. As versões que ela usou são um pouco menores do que essas. Trata-se não de textos eminentemente críticos, mas de contextualizações e observações sobre o tratamento que cada cineasta aplicou ao material original. Antes de mais nada, são textos para serem lidos em voz alta. Começo com a primeira versão de Bonitinha, mas Ordinária, rodada em 1963, que passa amanhã.

Em 1963, o crítico Alex Viany alertou que Nelson Rodrigues era “um perigo a evitar” no cinema brasileiro. Mas ainda bem que Jece Valadão não estava a fim de lhe dar ouvidos. O ator vinha de um sucesso com Boca de Ouro, adaptação da peça homônima de Nelson, dirigida em 1962 por outro Nelson, o Pereira dos Santos. Um ano depois, Jece produzia, interpretava e participava do roteiro deste filme – a primeira vez que a peça Bonitinha, mas Ordinária era levada às telas. Uma peça que, aliás, tinha sido pensada inicialmente como argumento de cinema.

Bonitinha é Maria Cecília, a jovem filha de um magnata do ramo de seguros. Ela foi vítima de uma curra e precisa ser casada urgentemente. Não menos bonita é Ritinha, papel de Odete Lara, professora humilde que dá duro para sustentar três irmãs mais novas e a mãe demente. Entre essas duas mulheres e as duas classes sociais está Jece Valadão como  Edgar. Edgar foi contínuo e agora é escriturário na empresa do pai de Maria Cecília. O patrão propõe que ele se case com sua filha em troca de um cheque de 5 milhões de cruzeiros, pra começar. Está lançado o dilema moral de Edgar, que vai se prolongar até a última cena.

Não é à toa que Nelson caracteriza o escriturário como um potencial  Raskolnikof de Crime e Castigo. O personagem de Dostoievsky é um pobretão que comete um crime achando que tinha razões nobres para isso. Dostoievsky, aliás, é uma matriz frequente na criação de Nelson Rodrigues.

Com essa história, Nelson queria fazer uma radiografia do que ele considerava o “caráter brasileiro”. Todo mundo tem seu preço, toda família tem o seu momento em que começa a apodrecer. Mas a frase que mais ouvimos, na peça e no filme, é a famosa “o mineiro só é solidário no câncer”. Ninguém sabe ao certo se Otto Lara Rezende jamais proferiu ou escreveu a tal frase. Mas Nelson Rodrigues, seu amigo e colega de redação, não só lhe atribuiu, como colocou o nome do amigo no título da peça: Otto Lara Rezende ou Bonitinha, mas Ordinária.

O próprio título já antecipa a duplicidade de caráter das personagens femininas. Para os homens resta uma escala de canalhices que vai do carnavalesco magnata Heitor ao seu genro e braço direito, o repugnante Peixoto, passando por um sórdido diretor dos Correios e Telégrafos. Edgar é o personagem que balança entre a ética e a corrupção. Cabe a ele esclarecer se Nelson Rodrigues, por aquela época, ainda tinha um fio de esperança na salvação da humanidade.

Esta versão de Bonitinha, mas Ordinária foi na verdade a terceira adaptação de uma obra do Anjo Pornográfico para o cinema. Em 1952, os estúdios Maristela produziram uma transposição do folhetim Meu Destino é Pecar, publicado sob o pseudônimo de Susana Flag. Além disso, Nelson já havia colaborado nos diálogos de três filmes antes que o cinema dos anos 1960 descobrisse de vez o potencial de sua obra.

Bonitinha, mas Ordinária vem acompanhando o filão Nelson Rodrigues através dos tempos. Teve uma segunda filmagem em 1981, dirigida por Braz Chediak, e uma terceira em 2010, a cargo de Moacyr Góes, mas nunca lançada nos cinemas.

Esta primeira, dirigida por J. P. de Carvalho, é tida como a mais fiel ao texto original. O sabor dos diálogos está bem defendido pelos atores, com destaque para Jece Valadão, Odete Lara e Ambrósio Fregolente, que faz o empresário Heitor. Por sinal, o fantástico Fregolente foi o ator que mais atuou em adaptações de Nelson Rodrigues.

O diretor José Pereira de Carvalho dirigiu apenas dois longas-metragens, mas fez centenas de comerciais, foi ator e cantor de boates e de teatro de revista com o pseudônimo de Billy Davis. Foi ainda assistente de direção e co-produtor na época do Cinema Novo.

Bonitinha, mas Ordinária tem uma estrutura de melodrama clássico e algumas marcas de bom entendimento do subtexto de Nelson Rodrigues. Basta ver como Maria Cecília está sempre cercada de símbolos fálicos. Ou como o filme reitera imagens de subjugação da mulher, baseadas no trauma do estupro. Esse era o grande terror da classe média em fins dos anos 50, mas Nelson investe na ambiguidade através da farsa e da fantasia sexual.

Esse baile de máscaras que não cessam de cair foi visto nos cinemas por dois milhões de pessoas. Um público com que Nelson sequer tinha sonhado quando montou no palco sua parábola moral sobre os limites entre o cinismo e a decência.

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