A cantora e os pescadores

Sobre O SAMBA É PRIMO DO JAZZ e HÁLITO AZUL no streaming

Reinações da Marrom

A diretora Ângela Zoé já havia demonstrado que sabe associar-se a personagens simpáticos para fazer perfis documentais não menos amáveis. Assim foi com a ativista trans Jacqueline Côrtes em Meu Nome é Jacque e com Henfil no filme homônimo. O mesmo se repete com Alcione em O Samba é Primo do Jazz. A trajetória da cantora e instrumentista é contada por ela mesma e por suas irmãs, duas das quais participam de sua trupe artística.

Da crooner romântica na noite maranhense ao carioca Beco das Garrafas; das performances inspiradas pelas grandes cantoras americanas de jazz ao samba que fez dela madrinha da Mangueira; dos ecos do tambor de crioula no Maranhão natal aos shows na Europa, Alcione parece ter conseguido amalgamar tudo isso num estilo muito próprio, uma espécie de bebop brasileiro.     

O filme dá exemplos curtos de cada tipo de música e abre um bom espaço para a verve de Alcione se espalhar. Por vezes, parece que uma Dercy Gonçalves vai saltar de dentro do seu corpo e voz. Ao mesmo tempo, ela é a mãezona da família toda. Uma família maranhense que soube superar as dificuldades de um pai mulherengo, mas que inoculou o amor pela música. Alcione aparece, ainda, exercitando sua ligação constante com o Maranhão, o que a fez falar grosso contra o atual presidente brasileiro quando ele faltou com o respeito aos nordestinos (isso não está no filme).

Não há uma construção mais elaborada que dê personalidade cinematográfica especial a O Samba é Primo do Jazz, mas o jeito caloroso e despachado da “Patroa” (como seus músicos a chamam) garante 70 minutos de bom entretenimento.

>> O Samba é Primo do Jazz está nas plataformas Net Now, Vivo Play, Oi Play, iTunes, Apple TV, Google Play, YouTube Filmes e Looke.


Poesia no mar dos Açores

A plataforma FilmeFilme oferece um bom menu de filmes para os assinantes Premium, mas permite que qualquer um, mediante um cadastro simples, assista a diversos títulos disponibilizados gratuitamente. Entre estes está (creio que temporariamente) o inédito Hálito Azul, documentário poético rodado por Rodrigo Areias entre pescadores da Ilha de São Miguel, a maior do Arquipélago dos Açores. A bem dizer, rodado em grande parte no alto mar.

O mar é onde “acabam as palavras e o mundo que conheço”, recita o poeta faroleiro que abre e encerra o filme. No mais, é a vida mansa de um punhado de homens, em sua maioria idosos, contrastados por um menino que desde cedo já caiu de amores pela pesca. Os peixes estão rareando naquela costa do Atlântico. Discute-se a exploração de cotas da reserva pesqueira. Mas eles não parecem muito abalados por isso. Divertem-se nas conversas fabulares de pescador (há o que já viu sereia), nos desafios cantados no bar ou nos ensaios de uma peça baseada nas crônicas do livro Os Pescadores (1923), do escritor português Raul Brandão.

Um filme contemporâneo inspirado em crônicas antigas. Um documentário que se abre para a poesia. Um filme voltado para a tradição portuguesa da intimidade com a navegação. Singeleza e graça nas conversas às vezes rudes de tão francas. Mas também a mancha escura das muitas mortes no mar, a um só tempo amado e odiado (“cão maldito”).

Por trás da modéstia aparente, Hálito Azul tem uma bonita liberdade estrutural e um descompromisso com a objetividade que parece uma brisa de fim de tarde.

 

Um comentário sobre “A cantora e os pescadores

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