O cineasta dos operários

Hoje (domingo, 13/6), às 20h, vou participar de uma entrevista com o cineasta Renato Tapajós na concorrida Live do Conde, transmitida pelos canais Youtube do Gustavo Conde, da TVT e do Grupo Prerrogativas (veja links no final da matéria). Vamos conversar principalmente sobre seu último filme, Esquerda em Transe, exibido ontem na TVT. Mas não só.

Como bem indica o título, Esquerda em Transe (veja o filme aqui) examina e se interroga sobre a situação do pensamento progressista nessa encruzilhada difícil que vivemos desde o golpe de 2016. A jornalista Maria do Rosário Caetano definiu bem o filme ao apresentá-lo na TVT: “É um questionamento doloroso, mas necessário”. A análise conduzida em primeira pessoa por Tapajós retrocede aos anos Lula, quando, segundo ele, começou-se a perguntar se o PT era mesmo de esquerda, dado o projeto de conciliação de classes levado a cabo pelo governo. Ali teriam origem as dissensões e contradições que contribuíram para a queda de Dilma Rousseff.

É uma leitura entre várias possíveis do momento político. O que não se pode negar é que a esquerda (ou as esquerdas) se encontram em transe por obra não só de derrotas, mas também dos progressos alcançados pelos próprios governos petistas na ascensão social e na valorização de identidades até então excluídas da cena política maior. Marilena Chauí, uma das principais vozes do filme, explica como as várias esquerdas fazem análises e têm perspectivas diferentes da sociedade, o que as torna complexas e favorece sua fragmentação.

Num dado momento, Guilherme Boulos prevê que o projeto petista não mais representa nem é capaz de unificar a esquerda. Logo em seguida, as vozes do diretor e de Marilena o contradizem indiretamente, especulando que o PT ainda teria um papel importante a desempenhar na política brasileira. A volta de Lula ao cenário eleitoral, em 2021, terminaria de desmentir o diagnóstico de Boulos.

Esquerda em Transe caminha assim, entre opiniões que procuravam tatear o ambiente político no cenário pós-catastrófico que se seguiu ao golpe. Como repensar a esquerda e rever conceitos solidificados na conjuntura bem distinta dos anos 1970 e 1980, quando os sindicatos tinham força e os trabalhadores se reconheciam como classe?

As esquerdas foram divididas desde sempre, afirma Tapajós no trecho inicial de sua narração. Para ele, esse novo ciclo tem a ver com a juventude diversificada que tomou as ruas contra o golpe. Ele abre espaço nobre no filme para a garotada do Povo sem Medo e do Levante Popular da Juventude, com seus batuques e sua forma desabusada de protestar.

De certa forma, o veterano cineasta-militante também busca uma renovação na maneira de tratar suas imagens. Desde o longa anterior, Chão de Fábrica, ele estabeleceu uma parceria com Hidalgo Romero, com quem vem dividindo ora direção e roteiro, ora roteiro e montagem. Esquerda em Transe recorre a uma edição às vezes sampleada, com telas divididas, que foge à linguagem tradicionalmente praticada por Tapajós.

Essa abertura, porém, sempre existiu para um diretor que nunca foi um militante que filma, mas sim um cineasta que milita. Desde Universidade em Crise (1965), passando pelos clássicos do movimento metalúrgico (Greve de Março, Linha de Montagem) e da defesa dos direitos humanos (Em Nome da Segurança Nacional), Renato Tapajós praticou um cinema ágil, cheio de música e de invenções. Daí o apelo de seus filmes para além do momento e da causa a que serviram. Um ano antes de finalizar Esquerda em Transe, ele concluiu uma profunda análise do chamado Novo Sindicalismo Brasileiro no longa Chão de Fábrica

A história de Tapajós é uma admirável sucessão de envolvimentos com a política, a arte e a literatura. Militante do movimento estudantil nos anos 1960, entrou para a luta armada, foi preso durante cinco anos e muitas vezes torturado. Na prisão, escreveu e repassou para fora clandestinamente o que viria a ser o romance memorialístico Em Câmera Lenta. Depois de se aproximar do movimento operário, foi convidado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo a filmar os processos grevistas. Nascia, assim, o cineasta mais identificado com aquelas lutas.

Além de doze documentários de metragens variadas, realizou também o longa de ficção Corte Seco (2014), história de cinco ativistas contra a ditadura presos e torturados pela Operação Bandeirantes. Com Toni Venturi assinou o média-metragem No Olho do Furacão, sobre a vida privada dos guerrilheiros ativos durante a ditadura.

Aqui está o link da conversa com Renato Tapajós, sua companheira e produtora Marena Valadão e seu parceiro Hidalgo Romero, conduzida por Gustavo Conde:

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