Festival do Rio: “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

O título original soa para nós como uma piada pronta: Babardeala Cu Bucluc Sau Porno Balamuc.

Esse filme romeno causou sensação no último Festival de Berlim com seu retrato cáustico de uma sociedade ainda confusa entre o passado de conservadorismo comunista ortodoxo e a liberdade conquistada nas últimas décadas. A longa cena inicial parece retirada de um site pornô qualquer. É assim que tomamos contato com a personagem central de Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, uma professora fazendo sexo fogoso com seu marido. O vídeo vaza na internet e ela terá que comparecer a uma reunião com os pais dos alunos.

Radu Jude dividiu seu filme em três partes muito distintas. Na primeira, Emilia (Katia Pascariu) empreende uma infindável caminhada pelo centro de Bucareste, fazendo pequenas compras e dando margem a que a câmera frequentemente se desvie dela para captar detalhes do entorno. É uma maneira curiosa de deixar anotações sobre uma cidade hostil, pouco atraente, marcada pela poluição sonora e por relações ríspidas entre seus habitantes. Emilia funciona, então, como um dispositivo de descrição. Ao redor dela, multiplicam-se cenas de desconforto urbano, discussões, xingamentos. À vulgaridade dos outdoors e dos bens de consumo soma-se a multidão sem máscaras ou com máscaras sob o queixo já em plena pandemia. Nada muito diferente de uma calçada de Copacabana, por sinal.

Só na terceira parte Emilia vai, enfim, enfrentar seu júri de pais, quase todos representantes de uma classe média hipócrita ou de estamentos da oficialidade. Não sem antes assistirem coletivamente às cenas da festinha conjugal, eles e elas passam a chicotear a mestra pecadora com palavras e deboches. Emilia se defende, levando a discussão para o campo dos métodos pedagógicos, do antissemitismo e do proverbial preconceito romeno contra os ciganos. A pantomima das máscaras no rosto das pessoas traz um toque de comicidade característico desses tempos pandêmicos. A máscara customizada insinua a identidade de cada um.

Entre essas duas partes há um intermezzo puramente retórico, não narrativo, no qual Radu Jude expõe o background do processo a que Emilia está sendo submetida. Em forma de colagem, desfilam referências históricas e políticas, assim como cenas constrangedoras da atualidade romena, acompanhadas de anedotas textuais de fundo moral. A veia fascista da Igreja ortodoxa, a liberdade concedida para espancar os mais fracos, a arrogância patronal e inúmeras outras aberrações são alvo de comentários irônicos. A crise sanitária da Covid-19 tampouco escapa ao rolo compressor, como na tomada que mostra um “Serviço Funerário non-stop” funcionando ao lado de um hospital.

“A tela do cinema é o escudo polido de Atena”, afirma-se num dado momento, referindo-se à Égide, o escudo em cujo reflexo Perseu divisou a Medusa para matá-la sem ser petrificado pela visão direta do monstro. O cinema, assim, seria uma forma de ver a monstruosa realidade indiretamente, sem a necessidade de contemplá-la de frente. Para o bem ou para o mal, é isso mesmo o que buscamos na tela quase sempre.

Ao fim do julgamento de Emilia, o filme apresenta três alternativas de final, sem que isso acrescente um novo gume a sua lâmina. A impressão é de que Radu Jude não sabia mesmo como concluir e decidiu fazer disso mais uma piada, esta infelizmente sem graça. Há quem ache que seu filme combate a vulgaridade com mais vulgaridade. Não é o que eu penso. A maneira distanciada com que tudo é mostrado, como se fosse através de um véu de sarcasmo, só faz realçar, pela caricatura, o caráter de uma sociedade, esta sim, pornográfica.

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