MR. NOBODY AGAINST PUTIN, indicado ao Oscar de longa documentário
A frase que intitula minha resenha foi dita por Vladimir Putin a respeito da “operação militar especial” que lançou contra a Ucrânia em 2022. Parte do esforço de guerra russo foi direcionado às escolas com a criação da disciplina “Educação Patriótica” e, mais adiante, do “Movimento Infantil Pan-russo”. Em última análise, era a militarização do ensino fundamental.
Um dos professores-patriotas almejados por Putin era Pavel Talankin, de uma escola primária da cidade mineira e hiperpoluída de Karabash, perto dos Montes Urais. Mas Pavel, vulgo Pasha, rapaz descolado e muito querido pelos alunos, não compartilhava do entusiasmo, nem do conformismo da maioria de seus colegas. Valendo-se da função de coordenador e cinegrafista de eventos da escola, ele gravava as mudanças impostas pelo regime.
Os alunos passaram a entoar hinos patrióticos, fazer marchas militares, escrever cartas de encomenda aos soldados e participar de aulas roteirizadas de doutrinação. Pasha documentava tudo aquilo para enviar a um banco de dados do governo, conforme instruções de Moscou. Em dado momento, a partir de uma postagem no Instagram, ele recebeu a proposta de David Borenstein, documentarista estadunidense radicado na Dinamarca, para fazer um filme com o seu material. Assim nascia Mr. Nobody Against Putin, um dos cinco indicados ao Oscar de longa documentário.
O título é um tanto apelativo, já que Pasha não é um “Sr. Ninguém”, nem o filme é exatamente contra Putin, mas contra a instrumentalização da educação para fins nacionalistas. De qualquer maneira, o documentário é fruto da atitude corajosa de Pavel, que colocou a vida em risco para levar aqueles bastidores específicos da propaganda bélica russa ao conhecimento do mundo. Ele hoje vive em alguma outra parte da Europa, levado pela produção estrangeira do filme.
Numa das cenas mais perturbadoras, mercenários do famigerado Grupo Wagner fazem uma palestra sobre armas em sala de aula. Crianças eram instruídas sobre arremesso de granadas. Um professor de história ligado ao partido do governo – de convicções stalinistas mas curiosamente parecido com Goebbels – ministrava noções de propaganda aos alunos. Do lado de fora da escola, manifestações a favor da guerra se multiplicavam. Até a mãe de Pavel, bibliotecária do colégio, apoiava a retórica de Putin.
As notas trágicas não tardaram a chegar. Sentindo-se sufocado e impotente, Pavel lamentava a convocação de ex-alunos seus, ainda muito jovens, para a frente de batalha. Vários não regressaram com vida.
Quase inteiramente filmado pelo próprio Pavel, segundo sua perspectiva, o documentário é simples e direto na captação, habilidoso na montagem e extremamente valioso como evidência de um gravíssimo desvio de função do aparato educacional. É por aí que se constrói e se mantém um regime totalitário a partir de suas raízes.
>> Mr. Nobody Against Putin ainda não tem previsão de estreia no Brasil.
Trailer legendado em inglês:





