ALABAMA: PRESOS DO SISTEMA
A grande novidade desse filme, para mim, foi saber que presidiários bem liderados, e armados com celulares contrabandeados, puderam criar um movimento em defesa de direitos humanos que repercutiu na sociedade. Para sorte deles, ganharam a cumplicidade dos documentaristas Andrew Jarecki (A Captura dos Friedman) e Charlotte Kaufman para trazer ao mundo esse libelo impactante. Alabama: Presos do Sistema (The Alabama Solution) está indicado ao Oscar de longa documentário.
Por ironia, os agentes penitenciários da Easterling Correctional Facility contribuíram para a produção, já que eles próprios contrabandeiam os celulares – e também drogas – para dentro dos presídios. Em contato direto com os realizadores ao longo de cinco anos, os ativistas presidiários Melvin Ray e Robert Earl comentaram e repassaram cenas da vida no cárcere, incluindo espancamentos brutais e a saída dos sacos de cadáveres. A preferência dos agentes por brutalizar o rosto dos presidiários parece uma marca dos 11 presídios do estado do Alabama. A mãe de Steven Davis, que teve o rosto esmagado até a morte, procura justiça para o filho num dos eixos principais do filme.
O Alabama tem uma história infame de racismo (é berço da Ku Klux Klan) e enriquecimento pela escravização. De certa forma, o encarceramento em massa dá continuidade a essa tradição. Em setembro de 2022, Melvin e Robert, criadores do Movimento Alabama Livre, lideraram uma greve que paralisou o trabalho escravo nas prisões do estado durante três semanas. Os registros da paralisação foram fornecidos pelos detentos, assim como quase tudo o que vemos no filme. (No Brasil, tivemos um projeto assemelhado, embora menos incriminatório, em O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento).
O presídio Easterling tem 200% de lotação e metade dos funcionários necessários. Algumas imagens atestam o ambiente sufocante, insalubre e violento. A dependência química gera zumbis e mortes por overdose. Os detentos se desdobram para dar a assistência possível uns aos outros. Enquanto isso, a governadora republicana Key Ivey tira dinheiro da educação para construir novos megapresídios. A intervenção do governo federal é rejeitada em nome dos direitos do estado – o que Key Ivey chama de “a solução Alabama”.
Todo esse quadro causa indignação porque esfrega na cara da consciência do país aquilo que fica encoberto pelas interdições, os discursos de dissimulação e mesmo a retórica cruel de que bandido não é ser humano. Por outro lado, o filme de Jarecki e Kaufman poderia ser ainda mais potente se não sofresse de uma reiteração insistente dos mesmos argumentos, tornando-se mais longo do que seria recomendável. A medida certa de um dossiê como esse é parte de sua força.
>> Alabama: Presos do Sistema está na plataforma HBO Max.




