Thomas Mann na berlinda ideológica

A TERRA DO MEU PAI

Eis um filme relativamente pequeno, de não grandes ambições, mas que cresceu pelo tamanho do personagem central, Thomas Mann, e pelo hype em torno da atriz Sandra Hüller. A Terra do Meu Pai (Fatherland ou Ojczyzna em polonês) é um pequeno estudo sobre o lugar do escritor em momento de extrema polarização.

Quando o filme começa, quem está em cena é Klaus Mann, filho de Thomas e autor do romance Mephisto, brilhantemente levado às telas por István Szabó 55 anos atrás. Mephisto é um retrato dissimulado do ator Gustaf Gründgens, que se vendeu ao nazismo em troca de sucesso. Gründgens foi marido de Erika Mann, irmã de Klaus, e aparece como personagem numa curta cena de A Terra do Meu Pai, apenas o suficiente para levar um tapa da ex-mulher.

Mas Thomas Mann também é um autor na berlinda diante das circunstâncias políticas da Guerra Fria. Na pele do mítico ator e escritor Hanns Zischler, Thomas está voltando à Alemanha, depois de 16 anos exilado nos EUA, para receber o Prêmio Goethe, que lhe será entregue na cidade de Weimar, agora localizada na Alemanha Oriental sob domínio soviético. Ele está em companhia de Erika, que lhe faz as vezes de intérprete, revisora e motorista. Juntos, viajam de Frankfurt a Weimar, coletando homenagens e também críticas agressivas.

Para muitos alemães, Thomas Mann é um traidor que se vendeu aos EUA e ganhou cidadania estadunidense. Mesmo Erika o acusa de usar palavras belas e vazias ao invés de se engajar na construção da “Nova Alemanha”. Durante a viagem, os dois poderão testemunhar tanto as tergiversações de ex-colaboradores do nazismo quanto a perseguição aos dissidentes na esfera soviética. Ademais, diferentes matizes ideológicos aparecem tentando se apropriar da figura emblemática de Goethe.

Outro eixo dramático diz respeito à relação dos irmãos Klaus e Erika, vínculo definido por uma pesquisadora como de “incesto emocional”. A diferença de reações entre ela e o pai diante do suicídio de Klaus vai revelar mais uma faceta da personalidade de Thomas Mann.

A direção de Paweł Pawlikowski, premiada em Cannes, é sóbria ao extremo. Em tomadas fixas – só registrei três momentos em que a câmera se move –, tela quadrada e preto e branco impecável, o discreto road movie evolui sem grandes investimentos em cenografia de época. Valem mais as sugestões que a ostentação.

Por momentos me lembrei de Morangos Silvestres, tanto pelo motivo da viagem/homenagem quanto pela semelhança entre Hanns Zischler e Victor Sjöstrom. Percebi também uma boa dose de ironia na abundância de cantos corais se exibindo na antiga RDA. É como se as ideias de ordem e uníssono sufocassem as diversidades, muito valorizadas pela família Mann. Erika era bissexual e Klaus, homossexual. Thomas escreveu Morte em Veneza.

>> A Terra do Meu Pai está nos cinemas.  

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