100 DIAS
(crítica-ficção)
– Base Crítica 54 Carmattos chamando Papa Yankee 2 Kilo Alfa Quebec.
– Minha posição é GG87jb, Latitude aproximada de 22° 55′ S e Longitude 43° 10′ W.
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– Amyr, está na escuta?
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Eu sei que é o ator Filipe Bragança no seu papel, mas vamos seguir o meu plano assim como você segue o seu plano aí no barquinho Iat fazendo a primeira travessia a remo do Oceano Atlântico.
De Lüderitz, na Namíbia, ao litoral de Salvador, na Bahia, são 6.500 quilômetros, ou 3.500 milhas náuticas que você está singrando sozinho, na companhia apenas de um exemplar de Cem Anos de Solidão.
Seu pai (Felipe Camargo) não acreditava em você, mas sua mãe (Philippine Leroy-Beaulieu) e seu irmão Tymur (João Vitor Silva) lhe dão toda força e lhe acompanham em Papa Yankee 1 Bravo X – Ray. É sempre assim nas jornadas do herói. Há os que apoiam e os que desestimulam. Câmbio.
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– Aqui Base Crítica 54 Carmattos na escuta. Câmbio.
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– Amyr, você me ouve?
Ou está lutando contra a tormenta em alto mar? Tubarões em volta do barco? Baleias chacoalhando as ondas? Há o risco de colisão com um grande navio? Feriu o pé? Os banhos de água salgada não estão ardendo na sua pele tostada pelo sol?
Não deixe de anotar tudo no seu diário de bordo para depois escrever o livro em que se baseia o filme do Carlos Saldanha.
Os flashbacks caretas mostram sua perseverança no sonho de construir o barco e realizar essa façanha a partir da casa em Paraty. Lá está aquela briga com o pai em que você feriu gravemente a mão e o braço – logo eles, tão essenciais para manejar o remo. Vemos que você inicialmente não suportava a ideia de comer comida desidratada durante 100 dias. Mas, que outra alternativa? Câmbio.
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– Base Crítica 54 Carmattos chamando Papa Yankee 2 Kilo Alfa Quebec.
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Amyr, você já saiu da rota diversas vezes. Precisa se afastar da África e escapar da turbulenta Costa do Esqueleto. O perigo lhe ronda, e o filme está ficando repetitivo. A miniatura do barco é inconvincente. Cuidado, Amyr, com os lugares-comuns do filme de aventura no mar. A perícia de Carlos Saldanha com a animação ajuda muito nos efeitos digitais, a finalização com ajuda dos finlandeses é bacana, tudo bem. Mas é preciso um pouco mais de substância humana nessa trip. Os flashbacks e a comunicação com Tymur e sua mãe são formulaicos e previsíveis.
O Amyr Klink real não quis dar palpite, mas está de olho nessa reencenação. Ele inclusive faz a voz do Comandante Ayres, fundamental para o êxito de sua viagem. Só ele sabe o que se passou nesses 100 dias de solidão no mar. O filme nos leva com ele, mas fica, digamos assim, na superfície da água. Um mergulho mais profundo talvez desse conta do espírito dessa jornada.
Ok, eu entendo. O que importa aqui é seguir o plano – ou o sonho, ou a fórmula –, um pouco no estilo hollywoodiano. Siga em frente, cuidado com tudo. Esperamos você na Bahia.
Câmbio final.
>> 100 Dias está nos cinemas.





Carlinhos, eu estava à espera desta crítica. E que delícia de crítica ficção! Eu não sabia que Cem Anos de Solidão foi companheiro de viagem de Amyr, que belezura.
Pois é, Katinha. Eu pensei em intitular minha resenha 100 dias de solidão.