Festival do Rio: “Contos Paralelos”

Asghar Farhadi, o excelente diretor iraniano de Procurando Elly, A Separação e Todos Já Sabem, parece ter se rendido a um cinema europeu anódino e rebarbativo em Contos Paralelos (Histoires Parallèles). Essa produção franco-belga de elenco estelar busca inspiração no episódio 6 da série Decálogo, de Krzysztof Kieslowski, que trata da paixão de um jovem funcionário dos correios pela bela vizinha em frente.

Lá estão os temas do voyeurismo e da mentira (este, um assunto frequente em filmes de Farhadi). Até a trilha sonora de Zbigniew Preisner é a mesma composta para a série de Kieslowski. Mas essa não é a única rebarba. A bisbilhotagem do prédio fronteiriço através de uma luneta lembra o paradigmático Janela Indiscreta, de Hitchcock. As referências se estendem ainda ao cansado recurso da metalinguagem, como era o caso de Natal Amargo, de Almodóvar, também presente na competição do último Festival de Cannes. Nenhum dos dois comoveu o júri, nem teve a complacência da crítica internacional.

Contos Paralelos é mesmo um imbroglio difícil de tragar. Isabelle Huppert, numa típica encarnação de mulher fria e arrogante, mas fragilizada, é a solitária escritora Sylvie. Para imaginar um novo romance, ela se inspira nas pessoas que trabalham num estúdio de sonoplastia em frente à sua janela. As primeiras cenas misturam realidade e criação literária, mas felizmente o clichê logo é abandonado.

Sylvie contrata os serviços domésticos de um jovem ex-presidiário que é também um mitômano e stalker contumaz. Adam (Adam Bessa) se aproxima de Nita (Virginie Efira), a moça do estúdio de som, como se fosse ele o autor dos manuscritos de Sylvie. Daí para a frente, o filme pretende ser um estudo de como a ficção pode influenciar a realidade a ponto de causar um distúrbio na vida dos envolvidos. Isso se fosse comum manuscritos literários serem lidos por estranhos por aí afora.

É curioso ver um filme em que Isabelle Huppert atua mas não é a protagonista. Sylvie passa a segundo plano com sua máquina Olivetti e um histórico familiar que só serve para tentar dar consistência a uma personagem sem alma. No seu lugar, abre-se uma trama meio patética de espreita, invasão de privacidade, roubo de autoria, triângulo amoroso e violência sexual envolvendo Adam, Nita e seus colegas de trabalho (Vincent Cassel e Pierre Niney).

Apesar da classe do elenco – com pequena participação de Catherine Deneuve – e do trabalho de direção, os longos 140 minutos do filme não dizem a que vieram. Esse é um modelo de cinema envelhecido e irrelevante que não vale os paralelos com Kieslowski ou Hitchcock.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/histoires-paralleles      

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