Julia entre dois mundos

Julia, a peça-filme que deu a Christiane Jatahy o Prêmio Shell de direção e fica em cartaz nos dois próximos fins de semana no Espaço Sérgio Porto, é uma das melhores coisas que há para ver na cidade. Adaptando a peça Senhorita Julia, de August Strindberg, para uma ambientação superficialmente brasileira, o espetáculo condensa toda uma discussão contemporânea sobre a convivência das linguagens do cinema e do teatro.

Tenho estado envolvido com o assunto por conta da próxima edição da revista Filme Cultura, que terá esse tema de capa. O momento é fértil em aproximações dos dois campos – basta ver a safra recente de filmes de jovens realizadores (leia aqui) e experiências como a de Enrique Diaz em seu primeiro vídeo-ensaio (aqui). Christiane é talvez a maior desbravadora da hora. Não vi sua peça anterior, A falta que nos move, mas não me incluo entre os maiores admiradores da transposição cinematográfica no filme homônimo. Se uma tensão beckettiana especial se desenvolvia a partir dos improvisos no palco, acho que esta não passou incólume para a tela. A questão da simultaneidade no tempo presente acaba sendo decisiva para o efeito de uma tal experiência.

Mas o que talvez me seduza e interesse mais propriamente não é o que acontece no cinema “ou” no teatro. O grande barato de Julia é justamente o que acontece no meio, entre uma expressão e outra. E isso só é possível quando as duas expressões convivem de verdade. Julia está muito além do uso habitual de projeções em montagens teatrais com vocação multimídia. Já vi muitos recursos bonitos e expressivos nessa área, mas em Julia toca-se um nervo da questão. Nossa atenção e deleite são atraídos por algo que não é bem cinema, nem é bem teatro, mas pontes entre os dois.

Tomemos alguns exemplos. Numa cena, Julia (Julia Bernat) está no filme pré-gravado, dançando num jardim, enquanto o motorista (Rodrigo dos Santos) a observa de longe, ao vivo no palco. Mas um cinegrafista (David Pacheco), onipresente no espetáculo, o filma contra um pedaço de cenário coberto por uma trepadeira. Temos, então, duas telas: a de Julia no jardim e outra com o close do rapaz contra as plantas, atirando-o virtualmente para fora do palco e para “dentro” do jardim. Outro momento: Julia e o motorista conversam durante um banho de piscina noturno pré-filmado. Em seguida decidem entrar na casa, isto é, ao vivo no palco. Diante do público, eles molham o corpo com a água de uma garrafa para simular a saída da piscina.

Um jogo lúdico assim se estabelece entre o teatro e o cinema. Numa cena, Julia parece flertar com a câmera e fotografa o cinegrafista com seu celular. O cameraman, por sua vez, dita ordens, pede repetições e acaba virando literalmente outro personagem. Mas se esse jogo repercute o jogo de poder, preconceito e sedução que rola entre Julia e o motorista de sua família (“pare de me filmar!”), não é somente de brincadeiras que ele é feito. A filmagem ao vivo (live cinema) também potencializa as emoções em pauta – como na cena em que os dois fazem sexo num quarto diminuto, apartados fisicamente das nossas vistas, mas extravasando nos closes do telão. Ou na primeira grande crise de Julia, quando as imagens filmadas de seu rosto sublinham a linguagem corporal da atriz ao vivo (foto acima).

Julia é excepcional porque toca alguma coisa que é essencial na percepção contemporânea. Real e virtual se comunicam, se intensificam mutuamente e geram, de fato, uma terceira coisa. O espetáculo está sendo transformado em filme para cinema. Christiane Jatahy demonstra domínio da decupagem e do tempo cinematográficos, como provam as belas cenas da piscina. Mas ainda não sei até que ponto a fruição excitante de Julia só se realizará plenamente nessa situação flutuante, nesse espaço meio mágico entre corpos e telas. O filme vai forçosamente subtrair uma dessas instâncias. Em que sentido a falta do palco vai mover a experimentação? Aguardamos ansiosamente.

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