NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS
O filme começa com o parto do diretor. Ignácio de Loyola Brandão canalizava no Super 8 o desejo irrealizado de ser cineasta. Filmou o parto de André Brandão, que agora assina um documentário sobre o pai. Outros partos virão ao longo do filme, numa espécie de ciclo de gerações naquela família.
Não Sei Viver sem Palavras é filme familiar sobre um pai que, casamento desfeito, admite não ter sido muito presente na criação dos filhos. Ao mesmo tempo, procura esboçar o essencial sobre a carreira do escritor. Desde o berço em Araraquara (SP), para onde o filme retorna sempre, como atraído por um ímã.
Ignácio é da geração que se formou nos anos 1970, sob o tacão da ditadura. Ainda que não muito diretamente, alguns de seus livros falam disso. Como Zero, definido pelo autor como “inventário de um tempo tenebroso”. Quando jornalista de Última Hora, descobriu que a realidade não lhe bastava e partiu para a ficção. Vieram os romances, as crônicas, as peças de teatro, os relatos de viagens e o sucesso no Brasil e no exterior.
Ele fala sobre a gênese de alguns romances, como Zero, Não Verás País Nenhum e Dentes ao Sol. A desse último é particularmente interessante. Foi a reescritura de um original execrado por Antonio Candido 14 anos antes. Ignácio o considera seu melhor livro, que no entanto vendeu muito menos do que ele esperava. Vida de escritor.
Lá está ele flertando com o cinema, seja na frustração pelo strip tease parcialíssimo de Rita Hayworth em Gilda, seja em participações miúdas nos elencos de O Pagador de Promessas e Anuska Manequim e Mulher. Ou ainda posando para Super 8 quando morava em Berlim. Ficou de fora o período em que foi crítico de cinema na juventude em Araraquara.
André Brandão, trabalhando com o codiretor Ricardo Carioba, partiu de um projeto caseiro para reunir conversas informais com o pai, itens do organizadíssimo arquivo pessoal de Ignácio e cenas diversas que ajudam a compor o retrato de um artista em plena maturidade. Nem sempre esses vários materiais se harmonizam perfeitamente, mas o resultado é sempre íntimo e agradável.
Nota-se a busca de um equilíbrio entre a abordagem do homem no centro da família e do profissional solto no mundo. Ignácio não é dado a dós de peito ao falar de si mesmo. O filme mantém-se fiel a isso, discreto e caloroso.
>> Não Sei Viver sem Palavras está nos cinemas.




