O ACIDENTE DO PIANO no streaming (e pequenas notas sobre A ODISSEIA e BACKROOMS)
Quentin Dupieux angariou muitos fãs com seu cinema da excentricidade. Mas há também quem desdenhe para suas tramas que flertam com o absurdo e seus personagens jocosos. Como o Salvador Dali de Daaaali!, que me pareceu uma piada insípida e às vezes de mau gosto. Mas eu me rendi à graça de O Acidente do Piano (L’Accident de Piano) por algumas razões.
A primeira delas é a caracterização de Adèle Exarchopoulos como a influencer Magalie Moreau, consagrada nas redes por seus vídeos de automutilação. Ela (não) sofre de insensibilidade congênita à dor (e pelo visto tem ossos de aço também), o que é seu trunfo para o sucesso. Adèle está impagável na figura dessa boneca perversa de sorrisinhos neuróticos, fala espremida entre os dentes aparelhados e dieta restrita a iogurte.
Magalie é uma espécie de consciência exposta de uma geração que se automutila como forma de dar vazão a transtornos de personalidade, depressão e vazio emocional. Ficou famosa e riquíssima devido à morbidez de sua atuação diante da câmera e sua recusa a dar as caras na mídia convencional.
Tratar disso numa comédia é um ato de risco, que Dupieux assume deixando que a amargura e a tragicidade temperem o humor. Esse foi outro fator que me sintonizou com o filme. Durante a gravação de um dos vídeos de Magalie, o acidente do título resultou numa ocultação de cadáver e posteriormente na chantagem de uma jornalista (Sandrine Kiberlain) que quer ser a primeira a jamais entrevistar a estrela da internet. Nesse ponto, um duelo de indignidades se estabelece entre as duas mulheres, com desdobramentos de folhetim macabro.
Os dois irmãos que stalkeiam Magalie incessantemente preenchem a lacuna caricatural que não pode faltar nos filmes do diretor.
>> O Acidente do Piano está na plataforma Mubi.
OH, DISSEIA!
De longe, assisto ao deslumbramento da crítica pela Odisseia de Christopher Nolan. Não é o primeiro filme desse diretor megalomaníaco que me causa a mesma má impressão. Admito que ele tenta ser fiel ao essencial da trama de Homero, mas é aí mesmo que tudo se torna apenas uma imensa sucessão de pancadaria e grandiloquência cênica.
Odisseu é o arquétipo do herói trágico e da aspiração perene à volta para casa. Ou seja, é a matriz das jornadas do herói e das narrativas épicas hollywoodianas. Mas, ao mesmo tempo, a Odisseia é um relato mítico, um poema que deve ser mais imaginado que concretizado em imagens supostamente reais.
O filme me chateou bem mais do que impressionou. Eu não via a hora de Darth Vader dar as caras por ali. Até mesmo a elogiada façanha técnica me pareceu canhestra em alguns momentos, como nos erros de escala no episódio do Cíclope.
Além do mais, não há licença artística que evite a sensação de ridículo ao ouvir Matt Damon se referir a “this fucking beach”, ser chamado de “lucky bastard” ou saudado com um “hello, traveller!”. Que os deuses me perdoem, mas tô fora desse fã-clube.
BACKROOMS: UM NÃO-LUGAR
Venci a resistência inicial e assisti a Backrooms – Um Não-Lugar. Não vou entrar no campo das interpretações desse típico produto midcult que procura traduzir psicanálise, neurociência e física quântica para o idioma do cinema-pipoca. Só quero me ater às duas únicas coisas que me interessaram além da atuação de Chiwetel Ejiofor.
A primeira é a exploração da estética suburbana estadunidense nas ruas, casas, móveis e itens de decoração. A loja do Capitão Clark é o suprassumo do vazio cultural e do gosto médio. Tem muito a ver com o american way of thinking que motiva seu dono na briga contra a frustração profissional e a ruína conjugal.
A segunda é a óbvia inspiração em instalações artísticas que usam mobília empilhada, emendada, semi-enterrada ou desfuncionalizada. Pensei no chinês Ai Weiwei, no japonês Tadashi Kawamata e no português Silvio Teixeira, mas são muitos os que exploram esse filão.








