O passageiro da distopia

FUTURO FUTURO

(crítica-ficção)

Por pouco eu não virei uma criatura de IA enquanto observava de perto as aventuras de K., o personagem central de Futuro Futuro. Escapei como pude dos cenários criados com a ferramenta pelo diretor Davi Pretto para imaginar a zona rica da cidade como um lugar perfeito, publicitário e inumano. Preferi ficar na zona periférica, onde faltam água, luz e comida, mas as pessoas eram gente de verdade. Ou assim pareciam.

Como tantos ali, o kafkiano K. (Zé Maria Pescador) é um homem sem memória, perdido num mundo em que a inteligência artificial assumiu o controle da vida. Como não fui acometido da doença neurológica que apagou as lembranças daquelas pessoas, não precisei me valer do “oráculo”, o artefato usado no tal curso de formação de imagens mentais. Era ali que as recordações de K. surgiam gradativa e desordenadamente: um apartamento em andar alto, uma mulher, um polvo…

Eu não soube muito mais porque K. não era de falar muito. Aliás, não compartilho daquela ideia-clichê de que, numa distopia como essa, todos os seres se comportam como robôs: hieráticos e de poucas palavras. Eu me comportei do meu jeito mesmo. Tampouco entendi por que, acolhido por um trabalhador digital idoso, K. teve que manter um intercurso homoerótico com o dito cujo. Pareceu-me que foi apenas para cumprir uma exigência contemporânea de filmes moderninhos.

Enfim, no difícil caminho das tentativas de ficção científica no cinema brasileiro, Futuro Futuro tem virtudes bem-vindas e falhas contumazes. É razoavelmente sugestivo na apresentação de uma cidade cindida após uma grande catástrofe. A partir da busca do passageiro K. por seu lugar no mundo, o filme apresenta sua derradeira cartada: estamos na véspera do fim do mundo, tal como em Melancolia, de Lars Von Trier. O apocalipse ficcional se relaciona com a catástrofe real que se abateu sobre Porto Alegre com as enchentes de maio de 2024. Futuro Futuro estava em meio às filmagens, e é louvável que tenha sabido aproveitar esse mote para dar um matiz de realidade à ficção.

Na minha breve estada naquela cidade imaginária, percebi outros detalhes que podem ser associados ao devir da tecnologia atual. O gerenciamento eletrônico da zona rica está em mandarim, alusão à presença cada vez maior da China no nosso cotidiano. A existência de rastreadores que submetem as pessoas ao controle de um estado patrimonialista remete ao constante rastreamento que nos segue por toda parte pelos meios digitais.

Não dependi de nenhum “oráculo” para me lembrar que o filme ganhou os prêmios de melhor filme, roteiro e montagem (Bruno Carboni) no Festival de Brasília do ano passado. Futuro Futuro sugere bem mais do que consegue colocar em cena, mas tem um mérito inegável na incorporação da IA à dramaturgia, ainda que de maneira críptica e pouco orgânica. Não me perguntem como saí daquela cidade com meu corpo concreto e a memória em dia a ponto de poder escrever essa crítica-ficção.

>> Futuro Futuro está nos cinemas.

 

Deixe uma resposta