Cine-antropologia pernambucana

“Doméstica”

Estreia hoje no Festival de Brasília o novo documentário de Gabriel Mascaro, Doméstica. Na última terça-feira Marcelo Pedroso mostrou seu novo curta, Câmara Escura. Entre os dois há muito mais em comum do que a “renúncia” ao controle da câmera e da documentação pelos respectivos diretores. Há principalmente um discurso dos cineastas pernambucanos que se alarga e se refina sobre a classe média brasileira.

Não vi o curta de Pedroso, mas li que ele deixou uma caixa com uma câmera ligada nas portas de casas bem protegidas do bairro rico de Casa Forte, em Recife. O resultado, imagino, é um conjunto de reações dos moradores a esse achado ameaçador. Como fez em Pacific, que retratava cruzeiros a Fernando de Noronha através de filmagens domésticas de turistas, Câmara Escura quer colher a expressão mais pura, menos mediada possível, de uma classe média em busca de segurança e prazer.

Doméstica usa dispositivo semelhante, mas ainda mais provocativo. Mascaro entregou câmeras a sete adolescentes de seis capitais brasileiras e pediu que eles filmassem as empregadas domésticas da família durante uma semana. Montou o filme exclusivamente com esse material.

O simples fato de transferir para os jovens a seleção de momentos, o grau de proximidade e o tipo de relação entre quem filma e quem é filmado já garante um ponto de vista diferenciado. Mais que isso, gera uma tensão muito típica dos contatos entre patrão e empregado no âmbito doméstico. A pouca idade dos filmadores ameniza um bocado essa tensão, mas ela está lá, explicita ou implicitamente, naqueles atos de flagrar, expor, conversar. A diversidade de posturas dos empregados, as relações de cada um com o espaço físico da casa, a maneira como cada qual reage ao fato de se tornar estrela do filme, tudo isso diverte e constrange ao mesmo tempo.

O pernambucano Gilberto Freyre e o paraibano José Lins do Rêgo deixaram escritos fundamentais sobre as relações históricas de afeto e poder entre patrões e empregados. Os realizadores pernambucanos parecem retomar essa linhagem. Doméstica põe a nu uma dialética entre a perpetuação e a diluição das relações senhoriais do passado. Mostra que ainda prevalece a passagem dos empregados como “heranças” entre várias gerações das famílias, assim como os casos em que se dissolvem as fronteiras entre a família do empregado e a do patrão.

As aspirações da classe média urbana atual estão sendo laboriosamente estudadas nesses filmes, além de tantos outros como O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, Um Lugar ao Sol, do mesmo Mascaro, e Praça Walt Disney, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, para só citar os que conheço. A importância desse estudo vai muito além das qualidades das obras individuais e fica clara principalmente no conjunto dos filmes desses novos cine-antropólogos de Pernambuco. Investigar as motivações e a unidade dessa “onda” é boa tarefa para pesquisadores.   

Um comentário sobre “Cine-antropologia pernambucana

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