Minha querida empregada

Reponho aqui, levemente adaptado, o texto que publiquei em setembro sobre Doméstica no contexto do que chamei de cineantropologia pernambucana.

O êxito de O Som ao Redor despertou quem ainda estava adormecido para a importância do estudo que, com surpreendente unidade, vêm fazendo os cineastas de Recife a propósito das aspirações da classe média urbana atual.  Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, Pacific e Câmara Escura, de Marcelo Pedroso, e Praça Walt Disney, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, para só citar os que conheço, têm seus valores individuais realçados pelo conjunto dessas obras.

No curta Câmara Escura, Pedroso deixa uma caixa contendo uma minicâmera ligada nas portas de casas bem protegidas do bairro rico de Casa Forte. Toca a campainha avisando que tem um embrulho na porta e desaparece do lugar. Mais tarde, ele retorna e pede de volta o equipamento. O filme é composto das variadas reações dos moradores a esse achado intrigante ou aparentemente ameaçador. Como fez em Pacific, que retratava cruzeiros a Fernando de Noronha através de filmagens domésticas de turistas, Câmara Escura quer colher a expressão mais pura, menos mediada possível, de uma classe média em busca de segurança e prazer.

Entre esse filme e Doméstica há muito mais em comum do que a “renúncia” ao controle da câmera e da documentação pelos respectivos diretores. Há principalmente um discurso dos cineastas pernambucanos que se alarga e se refina sobre a classe média brasileira. Em seu projeto, Mascaro entregou câmeras a sete adolescentes de seis capitais brasileiras e pediu que eles filmassem as empregadas domésticas da família durante uma semana. Montou o filme exclusivamente com esse material.

O simples fato de transferir para os jovens a seleção de momentos, o grau de proximidade e o tipo de relação entre quem filma e quem é filmado já garante um ponto de vista diferenciado. Mais que isso, gera uma tensão muito típica dos contatos entre patrão e empregado no âmbito doméstico. A pouca idade dos filmadores ameniza um bocado essa tensão, mas ela está lá, explicita ou implicitamente, naqueles atos de flagrar, expor, conversar. A diversidade de posturas dos empregados, as relações de cada um com o espaço físico da casa, a maneira como cada qual reage ao fato de se tornar estrela do filme, tudo isso diverte e constrange ao mesmo tempo.

O pernambucano Gilberto Freyre e o paraibano José Lins do Rêgo deixaram escritos fundamentais sobre as relações históricas de afeto e poder entre patrões e empregados. Os realizadores pernambucanos retomaram essa linhagem. Doméstica põe a nu uma dialética entre a perpetuação e a diluição das relações senhoriais do passado. Mostra que ainda prevalece a passagem dos empregados como “heranças” entre várias gerações da família, assim como os casos em que se dissolvem as fronteiras entre a família do empregado e a do patrão. Não há a denúncia “apresentada” como nos filmes sociais do passado, mas a exposição “representada” de uma dinâmica bem mais complexa do que os clichês da sociologia e da ideologia.  

5 comentários sobre “Minha querida empregada

  1. Uma pena que “Doméstica”, assim como aconteceu com “Hoje” de Tata Amaral, esteja sendo muito mal lançado no Rio de Janeiro, com dois horários apenas no Espaço Sesc e dois no Estação Gávea. Já o complexo de cinemas do Ademar, agora Espaço Itaú de Cinema, quando da estréia , colocou tanto “O abismo prateado”,quanto “Margaret Mee e a flor de Lotus” em todo os horários. De certa forma o Circuito Estação, matou “Vocês ainda não viram nada” do Alan Resnais, confinando-o em Botafogo, na sala 3, a menos nobre do Espaço Sesc.

    Ps. Achei o Marcos Breda, pai de Renato Russo em “Somos Tão Jovens” muito parecido com você Carlos Alberto. Será ele seu Duplo, seu “Doppelgänger”.?…

  2. ops comi mosca, mas me veio a memória o do Mereilles,dá pra confundir não é mesmo? Mas fico feliz que outros saibam que existe “Domésticas” tb na rica filmografia brasileira,
    tão desconhecida.rsrs

  3. Engano seu, Paulinho. O filme do Meirelles é uma ficção chamada “Domésticas”, no plural. Esse novo documentário “Doméstica” é do Gabriel Mascaro, conforme citado no texto. Releia com atenção. Abração!

  4. Doméstica é do Fernando Meireles?Gosto do filme, o programa Cinema BR em Movimento exibiu no campo de futebol da Rosinha tempos atrás, a plateia se identificou. E o filme do Cleber é muito bom! Agora me veio a cabeça pq estou perguntando o nome do diretor, é que não estão citados no texto, e para os “leigos” que te leem é importante essa informação. Por exemplo Fernando Meireles, a maioria da população acha que ele só fez Cidade de Deus. Com carinho. Abs.

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