Carta aberta a um produtor

(Esta carta da jornalista e documentarista Luciana Burlamaqui está sendo publicada hoje, simultaneamente, neste e nos blogs questões cinematográficas, de Eduardo Escorel, todoprosa, de Ricardo Soares, e no site Carta Maior)

São Paulo, 10 de dezembro de 2012

Caro João Daniel Tikhomiroff,

Convido você a refletir conosco sobre o assunto que se segue.

Há mais de cinco anos luto para tirar do cofre um documentário que revela um retrato profundo da segurança pública brasileira, a partir da investigação do maior roubo a banco da história do país: o furto milionário ocorrido no Banco Central de Fortaleza, em agosto de 2005.

Em setembro daquele ano fui contratada para dirigir e gravar um documentário que tinha como missão acompanhar a Polícia Federal na investigação do roubo espetacular que impressionou o país.

Ao longo de dois anos consegui ter acesso exclusivo aos bastidores da investigação e pude acompanhar de perto, sem equipe (eu mesma gravava som, imagem e dirigia), os passos secretos do chefe da investigação e dos agentes federais comandados por ele.

Ao longo desses dois anos, a qualquer telefonema do delegado, largava tudo de dia, noite, madrugada, feriado e finais de semana, e partia para alguma região do país. Foram cerca de 40 viagens por dez estados brasileiros e algumas para o Paraguai. Com deslocamentos pelo ar, água e terra, o documentário transformou-se num “road movie” investigativo pelos quatro cantos do país.

As histórias que testemunhei da investigação atrás dos movimentos da quadrilha são extraordinárias e dignas de um filme. Porém nada foi dramatizado, tudo é realidade. É um bastidor inédito sobre a segurança pública no Brasil e muito importante para o país conhecer.

Gravei mais de 170 horas de material e pude comprovar que a maior arma da Polícia Federal nesta investigação foi a inteligência. Esta foi a principal razão que me fez permanecer neste trabalho, que me exigia sacrifícios pessoais severos e, frequentemente, me colocava em situações de risco pela natureza sensível do conteúdo da história.

Foi a primeira vez em que estive tão perto de uma investigação policial com um olhar de dentro, livre. Sempre mostrei mais o lado dos acusados. Neste filme, pude  observar, documentar, refletir sobre tudo o que via. Por isso, posso afirmar hoje o que sempre acreditei desde quando iniciei meus trabalhos aos 20 anos de idade como repórter cobrindo a violência no Brasil: é possível combater o crime em nosso país sem matar!

Testemunhei e filmei o método investigativo do delegado e chefe da investigação e fui convencida disso. Acredito que mostrar a inteligência policial como estratégia para combater o crime organizado no Brasil pode ser um exemplo importante de contraponto à prática violenta de outras polícias.

A razão pela qual me manifesto publicamente hoje, quase sete anos depois do início do filme no ano de 2005, é que após dois anos de trabalho, mais precisamente a partir de agosto de 2007, fui impedida de continuar o projeto pelas produtoras que me contrataram.

Meu advogado foi informado por uma advogada da produtora que eles continuariam o filme e o finalizariam sem minha participação.

Ocorria ali uma tentativa de subtração dos meus direitos autorais para comercialização do documentário sem o meu corte final.

Para resguardar meus direitos autorais e preservar a vida de inúmeras pessoas, entrei com uma ação na Justiça no início de 2007 para que o filme fosse impedido de ser divulgado sem a minha direção e corte final. Há quase seis anos luto por essa causa. Em paralelo à Justiça, depois de alguns anos, consegui ser ouvida fora dos tribunais pelas duas produtoras que originalmente trabalhavam juntas e me convidaram para dirigir o filme. Junto com meu advogado, consegui depois de quatro anos, quando as duas produtoras já não estavam mais associadas, que  uma delas fizesse um acordo para que eu pudesse finalizar o trabalho. A minuta final já está pronta há alguns meses para ser assinada pelas partes.

Porém, a outra produtora, com a qual há mais de três anos tento uma  negociação, não dá sinais de querer finalizar o acordo. Pelo contrário, sempre que estamos próximos disso, voltam atrás ou desaparecem por meses. Não tenho retorno de e-mails ou, quando tenho, falam que  “estão vendo”, com adiamentos sucessivos.

Já fiz de tudo: trouxe o interesse de coprodutores estrangeiros e brasileiros de peso, aceitei assumir todas as responsabilidades do filme como produtora, pagar – após a 1ª captação – os custos de produção, colocar ou não os créditos a critério deles, mas na hora de fechar um acordo, sempre desistem, dando a entender verbalmente que o material ficará no cofre.

Durante todos esses anos luto em silêncio, mas diante do silêncio da única pessoa que ainda está hoje no comando da outraprodutora (e que já estava desde o momento inicial do trabalho em 2005), e que tem poder de continuar a negociação para fecharmos um acordo, resolvi tornar essa história pública na esperança de que o cineasta e produtor João Daniel Tikhomiroff se sensibilize e prossiga na negociação.

Na última reunião de que participei, há cerca de dois meses, aonde fui com meu advogado e estavam presentes apenas um advogado da produtora e uma produtora-executiva deles, nos foi apresentada uma minuta de poucas páginas em que colocamos nossas observações, e ficaram de enviá-la por e-mail já que não nos permitiram levar a proposta conosco. Esta minuta nunca nos foi enviada conforme combinado.

Assim, venho aqui apelar publicamente, após inúmeras tentativas de negociação, inclusive com a colaboração de alguns colegas da área, para que o cineasta João Daniel Tikhomiroff, produtor e autor de obras cinematográficas e audiovisuais, colabore em definitivo para que essa história possa ser contada. O assunto é de interesse público. Como jornalista e cineasta voltada para as questões sociais, sinto-me na obrigação de me dedicar a finalizar essa história da melhor maneira possível. Por isso, até hoje, empenho-me para resolver a questão.

Em um momento em que o Brasil, e principalmente o estado de São Paulo, vive a agonia de uma guerra pautada pela extrema violência de tantos lados com centenas de mortes, não podemos deixar que um documento único e profundo, com registros históricos, fique fora do alcance da sociedade brasileira. Acredito que este filme poderá contribuir para uma reflexão sobre uma política de segurança pública pautada na não violência, entre muitos outros assuntos a serem discutidos.

Com certeza, em vez de estar escrevendo esta carta preferiria estar editando aquele trabalho. Por isso faço este apelo público:

Caro João Daniel Tikhomiroff, vamos tirar este documentário do cofre e me permita contar esta história para o Brasil!!!

Conto com sua sensibilidade.

Luciana Burlamaqui
Jornalista e documentarista
(saiba mais sobre Luciana aqui)

4 comentários sobre “Carta aberta a um produtor

  1. Pingback: Carta aberta ao cinema brasileiro | ...rastros de carmattos

  2. Bizarro ter que se chegar ao ponto de uma carta aberta, de uma ação política, para tentar resolver um problema que por lei já se deveria ter chegado a uma solução.
    Sem dúvida esse material deve dar um filme ótimo, e por isso vale a luta.

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