O Ed Wood mexicano e o Homem-Aranha palestino

Juan Orol foi uma espécie de Ed Wood do cinema mexicano. Nascido na Galícia, Espanha, radicado em Cuba e depois no México, foi boxeador, piloto, toureiro e agente secreto antes de descobrir o cinema enquanto filmava fuzilamentos para a polícia mexicana em fins dos anos 1920. Ou pelo menos é assim que o biografa o filme O FANTÁSTICO MUNDO DE JUAN OROL. A história desse prolífico produtor, roteirista, diretor e ator de melodramas, filmes de “rumberas” e de gângsteres (o film noir mexicano) é contada num misto de homenagem e sátira, bem semelhante à forma como Tim Burton biografou Ed Wood. A linguagem do filme acompanha a de cada época (mudo, PB, cor). Os clichês de gênero são sublinhados em toda sua extensão, das atuações ao estilo visual, às transições de cena, etc. Nesse tipo de reencenação, é quase impossível saber até onde vai a referência aos erros e à cafonice do passado e começam os erros e a cafonice do trabalho atual. A gente tende a relevar tudo em nome da paródia, e nisso o filme de Sebastián del Amo encontra seu charme e sua graça. De resto, há o comentário sobre as interações entre a indústria cinematográfica mexicana da Era de Ouro e os poderes político, financeiro e erótico da época. As curvas de Maria Antonieta Pons, Rosa Carmina e Mary Esquivel, algumas das estrelas-esposas de Orol, garantiam libido alta mesmo com orçamentos baixos.

Depois de impressionar muito bem com “Paradise Now” e aparentemente decepcionar com o thriller americano “Entrega de Risco”, Hany Abu-Assad voltou à Palestina com OMAR, indicado ao Oscar de filme estrangeiro este ano. O tema agora é o destino de um brigadista palestino depois que cai nas mãos da polícia de Israel e negocia a liberdade em troca de uma promessa de colaboração. Com esses três filmes já dá pra notar que a “praia” de Abu-Assad é o gênero de ação. “Omar” se esmera nas cenas de perseguição pelas vielas da Cisjordânia, com seu atlético protagonista chegando bem próximo de um Homem-Aranha dos territórios ocupados. Mas o romance tampouco fica de fora: Omar é apaixonado por Nadia, irmã do líder do seu grupo e cortejada também por um colega. Quando sai da prisão para cumprir ou não o seu trato com o inimigo, ele enfrenta portanto uma série de questões que vão da lealdade política à amorosa. O muro da Cisjordânia aparece em sua justa função, que não é separar israelenses de árabes, mas isolar os palestinos uns dos outros e assim mantê-los menos ofensivos. O roteiro, do próprio Abu-Assad, passa uma visão urgente e dinâmica da vida no lugar, mas incorre em tantas elipses e toma caminhos tão mirabolantes que é preciso, mais que atenção, ter fé naquilo que é mostrado. Se não doura a pílula em nenhum dos dois lados, “Omar” pinta um protagonista marcadamente simpático, que faz a balança pender para o seu lado pela via da identificação pessoal, e não política.

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