Africanos

Os diretores Eric Toledano e Olivier Nakache, sem dúvida, têm um faro para transformar problemas difíceis em soluções fáceis e, a partir de situações complicadas, engendrar feel good movies, desses que fazem o público médio sair do cinema de alma leve. Se em Intocáveis” eles produziam essa química com a incapacidade física e os choques culturais, em SAMBA lidam com as agruras dos imigrantes na França e de uma executiva com transtornos nervosos. Ambos os filmes são o que chamo de filme-massagem, em vez de mensagem. São plenos de confiança na generosidade humana e na conciliação de diferenças. O senegalês Samba e a parisiense Alice (Omar Sy e Charlotte Gainsbourg, ambos excelentes) passam o filme inteiro adiando a pulsão erótica enquanto se ajudam mutuamente, para isso infringindo as normas do assistencialismo que recomendam distância profissional. Como a trama aqui é mais intrincada que no filme anterior, com maior participação de coadjuvantes, ficam mais expostas as torções e simplificações criadas para que todos os males sejam contornados, mesmo que para isso seja preciso apelar às contagiantes músicas de Gilberto Gil e Jorge Benjor. Isso, porém, não chega a deturpar a ternura com que são tratados os personagens. O humor sempre chega na hora certa para quebrar as formalidades e gerar simpatia. Alguns diálogos são de tirar o chapéu, como o do casal no café. Apesar de saber que estava diante de uma fórmula, não posso negar que apreciei mais SAMBA do que “Intocáveis”.


Este não está em cartaz. NAIROBI HALF LIFE (“Minha Vida em Nairóbi” na Mostra de Cinema de SP de 2012) fez uma pequena revolução no cinema do Quênia. Conquistou um público avesso ao cinema nacional e vem inspirando outros cineastas. O diretor David “Tosh” Gitonga, um fã de “Cidade de Deus”, não nega a influência sobre essa aventura de um jovem fã de cinema e candidato a ator que decide trocar sua aldeia pela capital para tentar a sorte. As habituais ocorrências mudam seu rumo: é assaltado logo ao chegar, preso por engano e envolvido com uma gang de ladrões de autopeças. Seria apenas mais um conto do gênero, como tantos outros, se Mwas, o protagonista, não insistisse no sonho de subir ao palco. Ele passa a viver duas vidas, transitando entre o teatro de denúncia social e o roubo nas ruas. Essa dicotomia ganha um momento radiante na sua primeira discussão com a trupe teatral, quando ele assume o ponto de vista do ladrão numa peça que pretende discutir as profundas diferenças de classe à moda do filme “Edukators”. Ancorado na atuação carismática de Joseph Wairimu, o filme leva essa equação até um final previsivelmente positivo, mas ainda assim cativante. É um ótimo exemplo de colaboração entre a África e a Europa que não corrompe o sabor original. A coprodução com a Alemanha, capitaneada por Tom Tykwer (também creditado como supervisor da direção), certamente injetou qualidade na mise-en-scène e no excelente acabamento, mas preservou um misto de ingenuidade e rusticidade que, acredito, reflete o modo de ser e a cultura da chamada Nairobbery.

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