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Trago Comigo, o novo filme de Tata Amaral que estreia hoje (sexta) no Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo, baseia-se na minissérie homônima veiculada pela TV Cultura em 2009. A diretora e seus roteiristas mobilizam três ferramentas para recordar a luta contra a ditadura civil-militar no Brasil. Uma é o próprio filme, história de um ex-militante convertido em diretor teatral após a volta do exílio. Ele usa uma nova peça para ajustar as contas com suas recordações de um fato trágico. A outra é a peça mesmo, que Telmo, o diretor, transforma em seu psicodrama pessoal. A terceira ferramenta é um documentário-dentro-da-ficção, no qual ex-ativistas relatam suas experiências com a clandestinidade e a tortura.

A estrutura do filme é sofisticada, mas muito clara. A volta de Telmo a um velho teatro semi-abandonado é uma metáfora de sua dobra sobre si mesmo, em visível crise da meia idade. Por obra do ciúme da atual namorada, uma atriz bem mais nova, ele vai mergulhar nas lembranças de Lia, sua grande paixão na época da luta armada. A pauta transborda para os ensaios com jovens atores. A mescla entre improvisação e roteirização de memórias vai aos poucos revelando o que se passou entre Telma, Lia e outros companheiros. E vai trazendo consigo um rastro de culpa, amargura e verdades não reveladas.

A dimensão teatral da clandestinidade se evidencia no paralelo entre palco e assunto. Há um tanto de teatro na vida alternativa do militante clandestino. São muitos os traços comuns, como a alteridade, a troca de nomes, a representação, os disfarces. O filme explora muito bem essa relação.

Seguindo-se a Hoje, este é mais um sagaz movimento de Tata Amaral em sua escavação criativa dos ecos dos anos de chumbo. Para o seu cinema do confinamento (no qual Antonia é uma rara exceção), Trago Comigo agrega o huis-clos do teatro, com uma intensa interação entre ensaios e cenas, empenho individual e ação coletiva, representação e exumação de memórias, melodrama e discussão política.

A estratégia hamletiana da peça-dentro-da-peça, esboçada aqui e ali durante o processo, é adotada plenamente nos momentos decisivos do último ato. Isso vem coroar de integridade toda a proposta de mobilização do teatro enquanto instrumento de revelação.

O nome de Lucia Murat como consultora de roteiro remete a Que Bom te Ver Viva e sua justaposição entre encenação e registro documental. Nos depoimentos dos ex-ativistas, os nomes de agentes da tortura foram suprimidos no áudio e nos movimentos labiais. A opção causa um choque momentâneo, mas a justificativa virá nos letreiros finais e é perfeitamente compreensível.

Um tema subsidiário do filme é a diferença geracional dos envolvidos com o teatro. O ator que interpreta o jovem Telmo na peça é alguém que vem da televisão e se mostra desprovido de discernimento histórico. Os demais integrantes do elenco tampouco parecem compreender muito bem as questões em voga. Ao fazer essa caracterização, Tata incorre num certo risco, até porque é indisfarçável o desnível (real) entre as atuações dos jovens e a interpretação febril e persuasiva de Carlos Alberto Riccelli, sem dúvida num de seus melhores momentos no cinema. No que diz respeito a essa fragilidade dos atores jovens, o paralelo entre a peça e o filme acabam não contando muito a favor.

De resto, a potência cênica de Riccelli e a habilidade de Tata em lidar com os vários planos de dramaturgia resultam num filme de grande força emocional. Independente do tema ditadura, é um trabalho que se impõe pela inteligência de sua arquitetura dramática.