TERRA DEVASTADA, Revista Lume e homenagem a Frederico Machado
Brilha em São Luís do Maranhão uma luz bonita sobre o cinema. É a Lume, misto de produtora, distribuidora e editora do cineasta Frederico Machado. Dali já saíram filmes de forte cunho autoral como Lamparina da Aurora, Boi de Lágrimas e As Órbitas da Água, todos assinados por Machado, e DVDs de clássicos do cinema distribuídos pela Lume.
Agora esse bravo empreendedor das artes acaba de lançar a Revista Lume, publicação online gratuita dedicada a ensaios, críticas e entrevistas sobre cinema, teatro, literatura e cultura em geral, além de textos de ficção. Entre os colaboradores estão nomes consagrados como José Geraldo Couto, Daniel Schenker, Alysson Oliveira, Carla Bessa, Alexei Bueno e Luiz Soares Júnior.
O Festival Guarnicê de Cinema, em sua 49ª edição, vai homenagear Machado com a exibição, no próximo dia 21, do seu mais novo longa-metragem, ainda inédito comercialmente.
Terra Devastada, à primeira vista, é um filme de homens. Homens brutos capazes de crueldades como matar um casal a sangue frio para se apossar de suas terras. Homens que se divertem bebendo e sugando com os olhos as pole dancers num bar do interior. Homens que fazem amor como se dessem porrada.
O menino José vê seus pais serem mortos pelo latifundiário Antonio (Buda Lira) porque não queriam se desfazer de sua pequena propriedade. Vinte anos depois, José (Bruno Goya) retorna a sua cidade com um projeto de vingança. Algumas coisas haviam mudado, mas nem tudo. Antonio continuava truculento, intimidando posseiros e desprezando o filho que não parecia seguir o seu caminho. “Nossa família é que faz o tempo”, reza sua arrogância.
Com um pé no western e outro no drama de uma família disfuncional, Frederico Machado soma mais um tijolo a seu cinema introspectivo, de uma densidade quase palpável, forjado nas pulsões primevas dos personagens. A vingança em prato frio de Terra Devastada se arma lentamente, através de diálogos em tom menor e monólogos ensimesmados.
A rudeza imperante, porém, tem suas frestas. Nem José, nem Glauber (Vinicius Bustani) são feitos do mesmo tecido áspero. Os dois capangas de Antonio, por sua vez, mantêm entre si uma relação pouco ortodoxa para bandoleiros daquele naipe. No entanto, o que mais desafia a masculinidade tóxica do lugar é a prostituta e dançarina Maria (Áurea Maranhão), uma mulher de todos e de ninguém, que terá um papel disruptivo e decisivo no enredo. No fundo, o filme é sobre ela.
Empapado de hits do cancioneiro romântico popular, Terra Devastada rompe um pouco com a deriva experimental, radical e metafísica dos filmes anteriores de Frederico Machado. Estamos aqui em terreno mais assumidamente narrativo e sequencial, em que pese as esparsas fulgurações de sonho e memória. O produtivo auteur do cinema maranhense flerta com o filme de gênero, ainda que na sua gramática austera e muito pessoal.




