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No dia 7 de dezembro foram entregues no México os Prêmios Fênix de 2016 aos melhores longas-metragens iberoamericanos da temporada. Neruda, de Pablo Larraín, ganhou como melhor filme de ficção e o mexicano Tempestad, como melhor documentário. O Brasil também fez bonito: Aquarius deu a Kleber Mendonça Filho o prêmio de melhor direção e a Sônia Braga o de melhor atriz. Boi Neon trouxe as láureas de melhor roteiro e fotografia de ficção. Veja aqui a lista completa dos premiados.

Eu participo como jurado na fase de indicações e, em seguida, na fase de premiação apenas para documentários. É uma oportunidade inestimável de conhecer alguns dos melhores docs iberoamericanos da atualidade. Com base nas minhas anotações, passo a comentar aqui os que mais me agradaram entre os indicados pelos respectivos países. Neste e num dos próximos posts.

TEMPESTAD, de Tatiana Huezo (México, 2016)

Mais que merecidamente, venceu com o meu voto. Uma obra-prima em todos os quesitos. Duas mulheres contam suas histórias exclusivamente em off.

Miriam Carbajal saiu de uma prisão clandestina do cartel do tráfico depois de passar um tempo não especificado nas mãos de carcereiros e sicários. Ela conta os horrores que presenciou na prisão, incluindo a morte de um jovem imigrante e a dor de não ver o filho pequeno. Através de extorsões, a família pagava milhares de dólares apenas para mantê-la viva. A polícia, que a acusou sem provas de trabalhar para o tráfico, a entregou para o cárcere do cartel, perto da fronteira norte do país.

Todo o seu relato é coberto por imagens de um ônibus que percorre estradas do México, de norte a sul (o caminho de Miriam de volta à casa). A não ser por uma última e intrigante aparição, nunca vemos Miriam, mas somente os passageiros ensimesmados ou dormindo, além de cenas em um bordel, um mercado e batidas policiais nas estradas. Onipresença policial-militar num país dominado por milícias, polícias paralelas e cárceres mantidos pela trata (o tráfico de pessoas).

O efeito é poderoso como ilustração indireta, oblíqua, sugestiva, metafórica. Em lugar da mulher que fala, vemos muitos rostos mexicanos comuns, com quem aqueles fatos também poderiam se passar. É uma relação incomum e ousada entre narração e imagens.

Alternando-se com a história de Miriam, temos a de Adela Alvarado. Esta sim, aparece no circo de mulheres onde é palhaça. O dia-a-dia do circo, em silêncio, cobre o relato de Adela. Há dez anos sua filha Monica, de 20 anos, foi sequestrada pela trata. Ela foi extorquida, enganada e ameaçada de morte para que cessasse sua busca. Coisa kafkiana.

A narração das duas é pausada, em tom melancólico e ritmo constante. Cheguei a pensar que era dita por atrizes, mas não. A fotografia e o desenho de som são extraordinários.

Tempestad ganhou os três prêmios a que concorria: melhor documentário, fotografia documental e música original (onde competiam juntos fic e doc).


OLEG Y LAS RARAS ARTES, de Andrés Duque (Espanha, 2016)

Oleg Karavaychuk é um pianista russo de 88 anos. Peruca feminina sob boina, voz de falsete, a fragilidade de sua fala contrasta com o vigor das ideias e a energia ao tocar o piano. Velocidade, ritmo, surpresas. Ele soca as teclas como se trabalhasse na lavoura. O filme se curva a seu estranho carisma.

Oleg é um entusiasta do poder curativo da arte. Conta como se reabilita das caminhadas na neve ao entrar no seu querido Museu Hermitage. Tem sua vida iluminada pelo Hermitage e por Catarina da Rússia. Não se conforma com o fuzilamento da família do czar Nicolau II, em cujo lindo piano decorado ele tem o raro privilégio de tocar, e o faz divinamente. Apaixonado pela nobreza, mitômano a não mais poder, ele no entanto abomina a música clássica “cômoda”. A sua é “incômoda”. É mesmo um dissonante, enigmático, meio trans.

Vê-lo em cena é de cair o queixo. São monólogos em que a voz vai se desintegrando, ou então pequenas performances silenciosas como se ele tocasse dentro da cabeça. Os olhos fechados indicam uma vida voltada para dentro, vivida na imaginação, nas fantasias artísticas, na hipersensibilidade.

Oleg mostra o bairro onde mora, uma Beverly Hills stalinista criada no tempo em que Stalin dava casas aos “criativos”, grandes artistas como Tcherkassov e Tarkovski. Desfia teorias surpreendentes sobre a importância da mucosa, das camisas de bom tecido e do pudor sexual para a boa performance musical.

O filme é simples, deixa-o “viajar”. Com meros 66 minutos, seu maior defeito é ser curto demais para personagem tão fascinante.

Aqui o filme inteiro com áudio em russo e legendas em francês


ORE RU – A LA ESPERA DE FRANCISCO, de Armando Aquino (Paraguai, 2015)

Uma grata surpresa paraguaia. O Papa Francisco anuncia que visitará o Paraguai, e o país começa a se preparar. O filme acompanha as expectativas de algumas pessoas.

A estudante Gabi, moradora dos alagados do Bañado Norte, vai para a escola de barco e espera tocar fisicamente no Papa; a adolescente de classe média Mafe, que luta contra o câncer, quer receber a bênção direta do Papa; uma moça sobrevivente de explosão num supermercado em 2004 – que matou 300 pessoas – pretende que Francisco pare no local para saber do milagre; uma educadora guarani do interior vai entregar ao Papa um livro sobre seu povo; e ainda o artista Koki Ruiz, que idealizou a decoração do altar do Papa com espigas de milho e sementes, frutos da Pachamama.

Ore Ru (Pai Nosso em guarani) é um filme sobre fé, mas não é religioso. A fé é vista como expectativa pessoal, puramente humana, ou como consolação. Nisso se constrói dignamente.

O Papa chega e o filme alterna a aproximação dos personagens centrais com a histeria midiática através de flashes da TV, além de detalhes das multidões nas vigílias. O êxito ou a frustração de cada um em seu intento fazem o arco dramático da segunda parte do filme, com alguns momentos legitimamente emocionantes. Roteiro e montagem resolvem tudo muito bem e a trilha musical é comovente.

Leia sobre outros docs do Prêmio Fênix num dos próximos posts.