Novas vidas no Centro-Oeste

A moradia foi tema do documentário PARQUE OESTE e da ficção NEW LIFE S.A., ambos do Centro-Oeste, no Festival de Brasília

No ano passado, a documentarista Fabiana Assis, criadora do festival Pirenópolis Doc, apresentou o curta Real Conquista. Através dele conhecemos Eronilde Nascimento, uma das vítimas de uma violenta desocupação ocorrida em Goiânia, em 2005. Vítima é maneira de dizer, pois ela exala superação e vitalidade. Depois do episódio, em que 13.000 pessoas foram desalojadas à força do bairro Parque Oeste, 3.500 moradias foram demolidas por escavadeiras e pelo menos dois moradores morreram (entre eles o seu companheiro), Eronilde passou a mobilizar e organizar a comunidade com vistas à conquista de novo espaço digno para morar.

Ao apresentar no palco do Cine Brasília o novo longa extraído dessa experiência, PARQUE OESTE, de Fabiana Assis, Eronilde mais uma vez denunciou o ex-governador Marconi Perillo, hoje candidato ao Senado, pelo crime de 2005. Descumprindo uma promessa de não usar a força contra os ocupantes do bairro, ele acabou autorizando um massacre. As imagens reunidas por Fabiana Assis são impactantes. Registros de celulares testemunham o horror instalado no Parque Oeste pela força policial na manhã da desocupação. O povo em pânico, tentando se proteger dos tiros e das bombas de gás, uma família se refugiando no interior de uma casa, crianças se escondendo debaixo da cama. A diretora não nos poupa da dramaticidade visual e sonora dessas cenas, chegando mesmo a um limite no seu uso.

Mas o que se impõe, afinal, é a tranquila e firme personalidade de Eronilde no seu ativismo comunitário e atitudes solidárias. Ela batalha pela construção de uma escola, mete a mão na massa (literalmente) para levantar uma biblioteca, milita em outras ocupações próximas e no Comitê pelo Fim da Violência Policial. E ainda preserva a memória da transição de sua comunidade do Parque Oeste para o atual Real Conquista.

A parceria de Fabiana Assis e Eronilde Nascimento é mais um dos felizes encontros de mulheres com que o cinema brasileiro vem se enriquecendo e diversificando.



O longa NEW LIFE S.A., representante de Brasília na competitiva do festival, tomou o caminho arriscado de combinar sátira e drama sociais. Tudo se passa em torno da construção de um grande condomínio residencial com a proposta de um modo de vida ideal. Os empreendedores utilizam até mesmo um apartamento decorado com atores representando uma família feliz.

A ideia, a princípio, parece promissora, mas acaba não passando de uma denúncia ingênua da manipulação e das falsidades do marketing. Com o mesmo objetivo, temos a divertida participação do ator André Deca como um candidato ao Senado em plena gravação de uma peça de propaganda.

De outra parte, há o drama dos operários explorados e abalados por uma tragédia, e o arquiteto de boa consciência que passa por um grave processo de transformação. Ao fim e ao cabo, trata-se de evidenciar o conluio entre os poderes econômico, legislativo e judiciário para manter privilégios e afastar os pobres do campo de visão do Distrito Federal.

Boas intenções e boas ironias não faltam ao filme de André Carvalheira, inclusive no sentido de mostrar como esse novo espírito da direita armada se forma no Brasil. Mas a realização esbarra num ritmo arrastado, recursos repetitivos e estereótipos muito óbvios para questões tão polarizadas. Destaca-se a cenografia de Maíra Carvalho, com boas soluções nos espaços da obra e um aproveitamento interessante da casa superautomatizada onde vive o arquiteto.

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