The Image Bank

IMAGEM E PALAVRA

Como um homem a caminho da santidade, Godard foi abandonando coisas ao longo de sua carreira. Primeiro deixou de lado as histórias, depois os atores, então a própria ideia de personagens. Por fim, deixou até de filmar. Em IMAGEM E PALAVRA (Le Livre de l’Image), não há sequer as tomadas do diretor manipulando a montagem, como na série Histoire(s) du Cinéma. Aqui estamos “dentro” da sua ilha de edição, embalados por uma colagem selvagem sobre arte, guerra, revolução e terror.

Godard radicaliza na sua estética da ruminação e da interrupção. Mastiga imagens e áudios, poemas e muitos trechos do romance Uma Ambição no Deserto, do escritor egípcio-francês Albert Cossery, sobre a triste história do emirado fictício de Dofa. Boa parte dessas ruminações dizem respeito a um mundo árabe fadado a não ser compreendido pelo Ocidente. Mas não é só isso. Há também um “capítulo” sobre o destino de São Petersburgo e do comunismo, e um grande bloco atravessado por trens de inúmeras latitudes, evocando um dos maiores ícones do movimento cinematográfico.

A passagem dos trens, com os intervalos entre os vagões, não apenas alude aos trânsitos no mundo, mas também sublinha a ideia de interrupção, que comanda a (des)construção do filme, típica do diretor. “Só um fragmento pode carregar a marca da autenticidade”, cita Brecht nos créditos finais. Assim, os mil fragmentos dessas mil e uma noites godardianas são ora separados por telas pretas, ora entrechocados em explosões de supresa e fúria.

Os trocadilhos habituais marcam presença. Um deles: “Rimake”, mescla de rima com refilmagem para aludir ao eterno retorno das guerras. Tomando de empréstimo esse gosto pelo jogo de palavras, parodio o título em inglês The Image Book por The Image Bank, tal é a profusão de cenas agenciadas por esse filme-ensaio. São muitas dezenas de trechos curtos de filmes próprios e alheios, mais registros de atos políticos, rituais religiosos, execuções terroristas, futebol e filmes pornô. Tudo isso submetido a ferozes intervenções na cor, no quadro ou no áudio. E ainda detalhes de pinturas, desenhos, cédulas, dezenas de músicas e fragmentos de textos. Vozes se sobrepõem, com a de Godard remoendo as palavras e às vezes submergindo num volume quase inaudível. Da mesma forma, as imagens saturadas por vezes chegam perto da dissolução.

Anuncia-se uma versão itinerante do filme em forma de instalação, o que parece mais adequado para uma obra extremamente cifrada, no limite mesmo da entropia. Godard não cabe mais na convenção dos 90 minutos numa cadeira de cinema. É preciso desvendar novos formatos em que seu pensamento caleidoscópico e ultralivre possa surtir efeitos mais poderosos. Se é que ainda podem surtir, para além do mero culto a um artista que já foi genial.

2 comentários sobre “The Image Bank

  1. Carlinhos, eu amei esse filme. Estou digerindo ele a cada dia. Fiquei emocionada na verdade, porque ele me conduz a uma dialética da imagem que as vezes desespera, mas as vezes também surte esperança! Como uma revolução, que pode ou não acontecer através do cinema ou da própria capacidade humana de reinventar a existência. Ao final, estava com um mix de sentimentos, mas principalmente feliz.

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