Flerte com a transgressão

HAPPY HOUR – VERDADES E CONSEQUÊNCIAS

“Traição é uma palavra muito forte”. A frase ecoa em vários níveis na comédia romântico-política HAPPY HOUR – VERDADES E CONSEQUÊNCIAS.

Horácio (o argentino Pablo Echarri) não quer  ceder à tentação de transar com uma aluna enquanto não obtiver a autorização da mulher, Vera (Letícia Sabatella). Vera, por sua vez, é uma deputada progressista que aceita cooptar com um partido conservador para viabilizar uma candidatura a prefeita da cidade. Mais de um personagem declara-se apto a tolerar as puladas de cerca de seus parceiros em nome de um certo fairplay.

O longa de estreia de Eduardo Albergaria monta um divertido mosaico de ideias em torno da muito burguesa noção de fidelidade conjugal. E também sobre a distância que separa as teorias libertárias (“É preciso dar espaço para o desejo”) da prática no plano das relações.

As duas tramas centrais – o casal e a campanha eleitoral – são pontuadas por anotações paralelas bem-humoradas a respeito das duas nacionalidades em jogo, uma vez que Horacio é argentino. O incidente que supostamente detona nele a vontade de abrir o casamento tem a ver com a lenda urbana do bandido “Homem-Aranha”, que proliferou em várias cidades brasileiras anos atrás. A teia da aranha ensaia uma metáfora para os laços que mantêm as pessoas ligadas umas às outras, mesmo quando esse não parece ser o que elas desejam.

Uma piada interna da produtora Urca Filmes remete à frequência com que turistas pedem informação sobre o Pão de Açúcar naquela área do Rio.

O filme é uma coprodução com a Argentina, e há uma evidente intenção de adotar um toque portenho. Percebe-se isso no uso da narração castellana em off, na presença de um amigo de Horacio encarregado do alívio cômico e ainda no uso abundante de tangos entremeados à sakamotiana trilha sonora de Dario Eskenazi.

Essa influência talvez seja responsável pelo que a comédia tem de mais questionável, que é a narrativa exclusiva do ponto de vista de Horácio. Cria-se assim um viés que, sem ser exatamente machista, reduz as demais personagens a meros reflexos do impasse por que passa o marido insatisfeito. Albergaria alivia um pouco essa impressão fazendo Horácio ser sagrado pela imprensa e a opinião pública como um herói, fama que os políticos tentam capitalizar para a campanha de sua mulher.

No fim das contas, HAPPY HOUR é um filme espirituoso, realizado com inteligência, mas que apenas flerta com a transgressão e volta para casa com a consciência tranquila.

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