Greta não ri

GRETA

Greta Garbo, quem diria, é quem mais sorri em GRETA. O raríssimo sorriso vem perto do fim do filme, numa imagem de teste da atriz em Hollywood. Afora isso, o longa de estreia de Armando Praça se fecha numa atmosfera depressiva, um tango triste e claustrofóbico tocado em meio a notícias de uma Fortaleza mergulhada em violência. Até as ousadas cenas de sexo são lúgubres, como se servissem apenas para tirar um peso das costas de quem transa.

Livremente inspirado na veneranda peça Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, o longa gira em torno de Pedro (Marco Nanini), enfermeiro homossexual idoso que vacila entre a busca de companhia e o desejo de ficar só. “I want to be alone” é seu bordão, como no célebre desabafo da Garbo. Ao mesmo tempo, tenta cuidar de uma amiga de longa data, a transexual Daniela (Denise Weinberg), acometida de doença fatal.

O hospital é um misto de mundo cão e antro de libidinagem, onde médicos e pacientes fazem o que querem com os corpos uns dos outros. Quando Pedro liberta um preso ferido e o leva para casa, um novo capítulo se inicia em sua vida.

Tudo se escora na atuação de Nanini, premiada no Cine Ceará, onde GRETA ganhou também como melhor filme. O ator impõe o peso de sua presença e mantém o personagem contido em limites estreitos, sem jamais ceder ao espetacular. Sua Greta Garbo fetichizada é um poço de carência precariamente dissimulada. Mas há outros destaques, como a performance de Denise Weinberg (apesar de sua escalação ter sido questionada para o papel de uma trans) e a fotografia de Ivo Lopes Araújo, sempre cheia de detalhes surpreendentes de luz e texturas. Visual e climaticamente, repete-se o tom cearense-fassbinderiano já presente em Inferninho.

Por outro lado, tive dificuldades em assimilar o ritmo estendido demais da montagem de Karen Harley, as pausas alongadas nos diálogos e as várias incongruências na relação – física e emocional – entre Pedro e Jean (Démick Lopes), o assassino amante. Tal como seu personagem, GRETA oscila entre o atrevimento da exposição corporal e a prostração de um punhado de almas sem rumo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s