Caipiras irlandeses em conto filosófico

OS BANSHEES DE INISHERIN
Filme inédito comercialmente no Brasil que entrará na minha lista de favoritos do ano

Chega a ser uma façanha que uma história mínima, tão poucos personagens e tão poucas locações rendam um filme cativante como The Banshees of Inisherin. A condensação foi justamente o que me manteve fisgado através das sendas estreitas entre a comédia e o drama, o buddy movie envenenado e o conto filosófico, o patético e o assustador.

São apenas dois personagens centrais, cercados por três ou quatro coadjuvantes, o rompimento de uma amizade e um vai-e-vem entre duas casas, um bar, uma igreja e um pequeno porto. A ilha irlandesa fictícia de Inisherin é um fim de mundo povoado por um punhado de caipiras que repetem as mesmas frases e assistem de longe aos sinais da guerra civil em 1923.

Nenhum motivo para que, da noite para o dia, Colm (Brendan Gleeson) resolva cortar relações com Pádraic (Colin Farrell), seu amigo da vida inteira. “Eu não gosto mais de você”, afirma simplesmente. Colm quer se dedicar a compor com seu violino e não mais “perder tempo” com o simplório Pádraic. Essa alegação, porém, talvez encubra alguma razão insondável que Colm não admite nem para o padre confessor.

Pádraic é um homem cândido no sentido voltairiano ou um “homem sem qualidades” no sentido musiliano, para quem a simpatia está acima do intelecto e das ambições. Por isso não compreende nem aceita a rejeição do amigo, nem mesmo quando Colm demonstra na própria carne a decisão de não mais falar com ele.

Duas figuras fazem contraponto ao duo central. O jovem Dominic (Barry Keoghan), espécie de bobo da aldeia, é capaz de oralizar o que os outros somente cogitam. Siobhán (Kerry Condon), a irmã de Pádraic, personifica a razão e as potencialidades de quem não se vê condenado a envelhecer nos limites exíguos da ilha. Há, ainda, a figura macabra da Sra. McCormick (Sheila Flitton), que pressagia a morte com acento macbethiano. Seria ela possivelmente a encarnação de uma banshee, fada agourenta da mitologia celta.

Martin McDonagh, autor de filmes e peças teatrais, administra esses elementos com precisão de relojoeiro. Movendo-se nas paisagens pastorais do litoral irlandês, os personagens ora parecem viver um conto infantil, ora parecem saídos de uma intriga de Robert Bresson ou de uma fábula sombria de Carl Dreyer. Num elenco impecável de atores irlandeses, Colin Farrell tem mais chances de explorar as minúcias de um papel que me lembrou um Mr. Deeds de Frank Capra sem herança. Ao contrário, sua crescente solidão convoca nossa compaixão ao mesmo tempo que desprezamos suas tentativas de ser diferente de si mesmo.

Aparentemente despretensioso mas no fundo bem complexo, Os Banshees de Inisherin não se entrega de pronto, mas avança com as táticas de um jogo de xadrez.

>> Os Banshees de Inisherin estreia nos cinemas em fevereiro de 2023.

 

Um comentário sobre “Caipiras irlandeses em conto filosófico

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