RIO DE CLARICE
Não preciso aqui repetir o eterno bordão de que é muito difícil levar Clarice Lispector para outro meio que não a literatura, onde ela explora a infinidade de nuances dos sentidos das palavras. Luiz Fernando Carvalho, em A Paixão Segundo G.H., e Suzana Amaral em A Hora da Esrrela fizeram raros milagres. O primeiro, por se manter colado ao texto; a segunda, por interpretar bem o seu âmago. Rio de Clarice é mais uma das várias tentativas que caem no vácuo entre intenção e realização.
O filme é motivado por um laço familiar. A diretora geral do projeto, Nicole Algranti, é sobrinha-neta de Clarice e nutre sincera devoção pela obra da tia-avó. Ela escreveu o roteiro junto com Teresa Monteiro, biógrafa de Clarice, e convidou outras quatro cineastas para dividirem a direção dos cinco curtas aqui reunidos. Uma mesma equipe realizou as funções técnicas dos cinco episódios.
Todos tratam de dilemas da alma feminina e, de alguma forma, mostram mulheres que descobrem ou descobriram algo importante em suas vidas. Nicole encarregou-se de conduzir o curta inspirado em A Bela e a Fera ou Ferida Grande Demais. Uma “perua” de classe alta (Leticia Isnard), sabendo-se traída pelo marido, vai ao cabeleireiro e, na volta, se desencontra do seu motorista. Acaba mantendo uma breve relação com uma mendiga (Guida Vianna) e assim percebe-se como também uma mendiga, “só que rica”. Guida se destaca com uma boa performance de dança patética, mas a parábola derrapa na caricatura.
A veneranda Eunice Gutman comparece dirigindo Mal-estar de um Anjo, em que Leticia Spiller dá carona a uma atriz e descobre que pode ser útil bancando o “anjo” para alguém. O arremate da história se dá num divã de psicanálise. Maria Luiza Aboim assina Feliz Aniversário, reunião de família em torno dos 89 anos de uma matriarca que já compreendeu seu lugar na hipocrisia da família. Louise Cardoso e Lucélia Santos estão no elenco.
Em Amor, de Taciana Oliveira, uma mulher de família judia ortodoxa se entrega ao seu papel de dona de casa e encontra epifania nas pequenas coisas, uma vez que já descobriu ser possível viver sem felicidade. Quase todo narrado em off, este curta é o que se apoia mais diretamente no texto literário.
Por fim, o episódio mais bem realizado dos pontos de vista de direção de atores e trabalho de câmera é Preciosidade, de Barbara Kahane. Uma menina traumatizada por assédio (Karolyna Mendes) transita entre a casa e a escola. Tudo o que ela quer é que não a notem, e que parem de vê-la como uma boneca. A inocência é sua preciosidade perdida. Vale a pena curtir a atuação de Duaia Assumpção no papel da empregada e o funk Joana Dark na voz de Ava Rocha.
>> Rio de Clarice está nos cinemas.




