TRÊS VEZES ADEUS
(crítica-ficção)
Marta (Alba Rohrwacher) me encontrou no lixo quando voltava de um encontro com sua irmã Elisa (Silvia d’Amico). Pouco antes, havia se separado de seu companheiro Antonio (Elio Germano), com quem vivia pelos últimos sete anos. Ela me pegou carinhosamente e me levou para casa. Precisava de companhia. Sou apenas um recorte de papelão, mas pode me chamar de Jirko.
Em Três Vezes Adeus sou a fotografia em tamanho natural de um ídolo fictício do K-Pop. Por isso não compreendo muito bem certas escolhas dos ocidentais. Será que a relação entre Marta e Antonio estava tão ruim a ponto de uma ruptura? Deixa pra lá. Não tenho como julgar. Só sei que Marta entrou numa crise depressiva e perdeu o apetite. As tentativas da irmã de ajudá-la eram invasivas e desajeitadas. Até o Agostino (Francesco Carril), um colega professor caidinho por ela, não conseguia contribuir muito.
Mais efeito tinham suas conversas comigo quando ficou sozinha no apartamento. Sozinha, sim, porque eu não respondia nada. Sou de papelão. Mesmo assim, já que sou fictício, me dou ao luxo de saber também o que acontecia com Antonio. Enquanto Marta praticamente parava de comer e postava comentários desairosos sobre gastronomia, ele tocava pra frente seu restaurante Senzafine, mas temperava todos os pratos com a saudade da ex. Boas lembranças dos dois juntos chegam em imagens de Super 8, daquele jeitinho borrado que os flashbacks gostam de aparecer no cinema.
Presenciando as filmagens, reparei que Isabel Coixet não abre mão das ideias simples, doces e eficazes. Vindo da Coreia, adorei conhecer esses recantos de Roma na luz cálida das tardes de outono. O Tibre, o Trastevere, tantas cúpulas, um tesouro… Joayo, como dizemos em coreano quando gostamos de alguma coisa. Daí para Marta querer aprender coreano foi um jeom-peu, quer dizer, um pulo.
Quando fui chamado para esse elenco, eu procurei conhecer outros filmes da Isabel. Aprendi com eles muita coisa sobre os sentimentos dos europeus e percebi que ela sabe administrar bem os interstícios entre o romântico e o doloroso. Minha Vida sem Mim é uma bela prova disso. E como dirige bem os atores e atrizes! Em Três Vezes Adeus ela é capaz de rechear uma história aparentemente banal de separação com diversos subtextos que a enriquecem. Vários espelhamentos de seu drama pessoal surgem nas relações de Marta com a irmã, o colega, uma médica, uma ex-funcionária do restaurante de Antonio e duas alunas adolescentes vítimas de síndromes contemporâneas.
Eu não nego que me assustei quando ela chegou em casa com uma notícia que mudava tudo, a começar pela razão de sua inapetência. O que acontece daí pra frente é a grande sacada do filme. Prova de que as emoções não têm muita lógica – ao menos, creio, na Itália. Verdades sobre o amor e a amizade são ditas de maneira indireta, agridoce como o nosso frango Dakgangjeong.
Do meu ponto de vista, gostei do título original italiano Tre Ciotole, que se refere às três tigelas que atravessam o filme. Vocês sabem que de comer em tigelas eu entendo muito bem. Gosto principalmente da maneira como o filme dribla o melodrama e as obviedades, embora seja bastante comovente. E mostra uma realidade dura entre os adolescentes, que parecem ter desaprendido a viver, ao passo que a geração anterior ainda encontra saídas de lucidez.
Ora, direis, como esse personagem de cartão pode apreender tantas sutilezas dos humanos? Ok, então aguarde as últimas cenas do filme para saber um pouco mais sobre mim.
>> Três Vezes Adeus está nos cinemas.





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