A semente e o mundo

PAPAYA

Existem filmes de animação que contam boas histórias. E existem filmes de animação que contam boas histórias e são obras de arte. Esse é o caso de Papaya. A diretora Priscilla Kellen partiu do livro infantil Carocinho de Mamão, de Mafalda P. Zemella, e expandiu a aventura de uma semente de mamão que rejeita sua condição de árvore.

O tema é ousado. Imaginar uma semente que não quer se enraizar e prefere voar vai contra princípios básicos da Natureza. A metáfora sobre superação de limites é das mais atrevidas. A sementinha se encanta com os insetos, as aves, os pólens e tudo o que se move no ar. Consegue arrancar da terra suas primeiras raízes e transformá-las em membros que lhe permitem sair pelo mundo em busca do seu sonho de bater asas.

Assim Papaya vai concretizar seu parentesco com o consagrado O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que atuou como consultor artístico e coprodutor. Priscilla, por sinal, divide com Alê a autoria de um livro infantil que também trata de uma árvore frutífera: Mas Será que Nasceria a Macieira?

Nossa sementinha vai descobrir criaturas silvestres curiosas, como os cogumelos sacanas, mas também a violência do agro sobre as plantações, a terra devastada e a selvageria da industrialização. Por pouco não vira mero fertilizante na produção de plantas em série.

Enquanto ela descobre o mundo, os espectadores apreciam uma visão poética e fantasiosa dos ciclos da Natureza, com os caminhos da fertilização e a colaboração entre as várias espécies de plantas e animais.

Tudo isso nos chega sem diálogos, sinalizado apenas por sugestões sonoras e uma trilha musical vibrante de Talita del Collado, calcada em ritmos nordestinos e latino-americanos. Nem toda criança vai conseguir acompanhar o fluxo de ideias visuais que chegam numa estética tropicalista, inspirada tanto nos paper cuts de Henri Matisse quanto na pintura de Beatriz Milhazes. Mesmo assim, não faltará diversão e surpresas, mesmo distante da ação histérica das animações de orientação estadunidense.

A beleza é ininterrupta e não se rende às formas mais convencionais. Volta e meia a animação ganha pulso surrealista ou alucinógeno, culminando numa festa psicodélica pra lá de Marrakech. A ousadia preside até mesmo a resolução do desejo da sementinha numa saída híbrida e inesperada. Papaya foi selecionado para o Festival de Berlim deste ano e é mais um triunfo da animação brasileira.

>> Papaya está nos cinemas.   

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