Mulheres, Bíblia e sangue

VIRTUOSAS

Em tempo de coaches e influencers religiosos, Virtuosas chega como uma promessa de crítica oportuna. No entanto, promete também atender aos fãs do filme de horror, gênero muito cultuado por cineastas sulinos. A catarinense Cíntia Domit Bitar tem um currículo de curtas intrigantes e engenhosos antecedendo essa sua estreia no longa-metragem.

Bruna Linzmeyer domina o filme como Virginia Heinzel, líder de uma espécie de igreja frequentada somente por mulheres em busca de se tornarem virtuosas. Bruna se move roboticamente e desperta nossa desconfiança desde o primeiro take. Por sorteio são escolhidas três fiéis para um programa chamado Jornada Virtuosa VIP numa bela casa transparente isolada no campo.

Ali, inspiradas pelos ditados do Rei Lamuel nos Provérbios 31 do Antigo Testamento, elas aprenderão “o papel da mulher na família, no casamento, na sociedade e na Bíblia”: equilíbrio, organização, submissão e dedicação à família. É o modelo típico das tradwives (esposas tradicionais), movimento que prega o ultraconservadorismo nos papéis de gênero e chega à política pela extrema-direita. Vem então aquela velha ideia de que o marido manda, mas quem orienta esse mando é a mulher desde a cozinha e o quarto do bebê.

Na tal Jornada está uma esposa de deputado com seu bebê (Juliana Lourenção), mulher em crise maternal e tomada pela paranoia. Outra (Sarah Motta) é uma seguidora incondicional de Virginia. A terceira é Germina (Maria Galant), jovem que parece perceber algo de sinistro por trás da fachada elegante e acolhedora da casa. Ela será o pivô da trama.

O filme promete bem mais do que acaba oferecendo. Há muita coisa pretensamente subentendida, outras explicitadas com obviedade e um excesso de sugestões de que o roteiro acaba não dando conta. Entre as linhas que se cruzam há o jornalismo investigativo, o ativismo antivacina, o desejo lésbico reprimido, a competição entre mulheres, a crença em bruxas e a expectativa do sobrenatural. Tudo isso vai desaguar não só em secreção vaginal, mas principalmente em muito sangue no estilo slasher.

Por fim, para além dos cuidados audiovisuais, da boa trilha sonora e das interpretações intensas de Bruna e Maria, resta uma impressão de vazio. A possível crítica à junção de antifeminismo, religião e política acaba ficando vaga e diluída pela simples diversão macabra.

>> Virtuosas está nos cinemas.   

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