“Acredita quem tem fé, e pronto”

AS IRMÃS FOX

(crítica-ficção)

Eu morri em 1893, mas Wagner de Assis invocou minha presença para dar uma consultoria na coprodução Brasil-EUA de As Irmãs Fox (The Fox Sisters). Ele queria contar a nossa história. Eu, Kate e Leah demos início a uma onda de espiritualismo que partiu do estado de Nova York e se espalhou por vários países em meados do seculo XIX.

Eu jamais poderia imaginar que um diretor brasileiro quisesse abordar a nossa saga, ainda mais filmando a maioria dos interiores no Rio de Janeiro, em casarões e no Jockey Clube, aliás muito bem decorados por Clara Rocha. E ainda por cima misturando atores brasileiros e americanos (embora eu seja canadense, não gosto dessa mania dos brasileiros de chamar os americanos de “estadunidenses”). Bem, ele tinha a experiência de quem fez Nosso Lar e outros filmes sobre nossa religião. Confiei.

Desde que nós começamos a escutar ruídos intrigantes na casa mal assombrada onde fomos morar com nossos pais, começamos a perceber que podíamos controlar aqueles sons e até fazer móveis se moverem. Nascia assim o fenômeno das mesas girantes. Leah (Jamie Hughies), a mais velha de nós três, não tinha os mesmos dotes de mediunidade meus e da Kate (Marie McHugh jovem e Julia Svacinna adulta). Mas ela embarcou na nossa nave e virou uma espécie de gerente, levando nossas sessões pelo país afora, seja em forma de consultas individuais, seja em espetáculos de teatro. Por sinal, a cena rodada no Teatro Municipal de Niterói ficou uma maravilha.

É claro que, junto com a fama, vieram os questionamentos de cientistas, religiosos e descrentes incondicionais. Fomos tachadas de bruxas. Mas prosseguimos em nossa missão de “difundir a verdade espiritual”, como dizíamos e consta no livro publicado pela Leah.

Eu estava (muito bem) interpretada na infância por Sienna Belle e na idade adulta pela quase xará Sionne Elise. Quando me apaixonei pelo explorador Elisha Kane (Freddie Hoghan), Leah me repreendeu: “Maggie, ele não vai permitir que você continue com seu trabalho espiritual”. Mas eu estava disposta a seguir meu coração e até fui batizada numa igreja cristã. Enquanto isso, Kate mantinha suas sessões apesar de abatida pelo vício em álcool e morfina.

É dura a nossa história. Tem perdas e conflitos. E tem também os lances que relativizam a informação de que o filme se baseia numa história real. Quando aceitei dar essa consultoria, o fiz com a condição de que o Wagner incluísse no roteiro minha confissão pública sobre os métodos que usávamos em nossas sessões de batidas, adivinhações e psicografia. Eu admito que depois voltei atrás, mas essas coisas devem mesmo ficar nas brumas da dúvida. Questão de fé. Acredita quem tem fé, e pronto.

Eu, por exemplo, para ajudar o Wagner nesse filme, não me reencarnei propriamente. Só ele sabia da minha presença imaterial, orientando-o aqui e ali.

Achei bacana a forma como ele usou efeitos especiais nas sequências de quebra-quebra. A fotografia da Janice D’Ávila ficou linda com aquelas lentes Sumire Prime da Cannon. Mas, cá entre nós, os figurinos ficaram um tanto over às vezes, e a maquiagem de envelhecimento, sinceramente, nem eu, com meus 193 anos, aprovaria para mim mesma.

Não me pronunciei sobre esses senões, nem sobre o excesso de poses na mise-en-scène. Na minha idade, sei bem que filmes de época correm esse risco de engessamento das cenas mais formais. São convenções bobocas, como as viagens com aquelas malinhas vazias balançando nas mãos das atrizes.

De qualquer maneira, achei incrível o trabalho do Wagner e o empenho dessa produção em sugerir os ambientes e o período. A direção do elenco também é eficaz no geral. Pena que, antes do fim das filmagens, tive que deixar o set. Estava sendo invocada por outra mesa muito importante.

Não posso assegurar que foi devido à ausência dos meus pitacos, mas as coisas desandaram  um pouco na última meia hora de filme. O ritmo se arrastou, os ápices dramáticos ficaram exacerbados no mau sentido. E os fenômenos que aparecem ali têm mais a ver com as fabulações do Wagner do que com as nossas. Ok, é liberdade criativa, mas não no melhor espírito.

>> As Irmãs Fox está nos cinemas.

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