Mulheres que se disfarçam de homem para terem acesso a benefícios sociais são quase um subgênero no cinema. Yentl e Vitor ou Vitória são dois bons exemplos. A produção austríaca Rose recua até o século XVII para falar de travestismo, ambição, conveniências privadas e intolerância comunitária.
Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda, Zona de Interesse) ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim por sua interpretação de Rose, uma mulher que se disfarça de soldado e chega a um povoado para reivindicar a herança de uma propriedade arruinada. Ela tem ambições expansionistas e, para isso, aceita a proposta de se casar com uma moça em troca de mais terra.
Esta como outras situações lidam com os limites da verossimilhança, a começar pela evidência física e sonora de que aquele soldado não era exatamente um homem. Mas o filme não se preocupa muito em explicar ou justificar cada detalhe. Parte dos esclarecimentos vem de uma narração desencarnada que permite à produção economizar um bocado em elipses fundamentais. O fato é que, para surpresa nossa e da própria Rose, a esposinha fica grávida.
À expectativa de quando o segredo de Rose será desvendado se soma agora o mistério dessa gravidez. Forma-se um quadro familiar excêntrico e às vezes até divertido, em contraste com a rudeza do ambiente e dos costumes. Rose ganha status social depois de matar um urso e gerar empregos em sua próspera fazenda. A origem de seus recursos? É mais um segredo mantido a sete chaves pelo roteiro.
Além da atuação de Sandra Hüller, com o rosto desfigurado e os modos pseudomasculinos, Rose ostenta uma direção de arte minuciosa na criação de mobiliário, utensílios e artefatos da época. A fotografia argêntea é espetacular, variando entre o pastoral e o sinistro.
Com a experiência adquirida como diretor de elenco em filmes de Michael Haneke, Ulrich Seidl e outros, o diretor Markus Schleinzer escolheu rostos que parecem saídos dos quadros e gravuras da época. Com todos esses elementos, o filme tem um sólido efeito imersivo no ambiente claustrofóbico de uma Alemanha ainda mergulhada na ética medieval.
Daí que a farsa de Rose não terá futuro garantido. A comunidade se roga o direito tanto de exigir a reprodução como dever de todo casamento, quanto de punir quem trai a verdade perante seus pares. A busca de uma purificação justifica a violência sagrada. Rose articula esses temas com grande sobriedade, ainda que ao custo de deixar dados importantes na obscuridade.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/rose



