Festival do Rio: “La Gradiva”

De catástrofe sem precedentes, a destruição de Pompeia pelo Vesúvio no ano 79 passou a ser um mito fundador da tragicidade italiana. Dezenas de filmes já foram feitos a esse respeito. O mais famoso talvez seja Viagem à Itália, de Rossellini, em que um casal inglês em crise visita Nápoles e as ruínas de Pompeia. Em 1902, o alemão Wilhelm Jensen publicou o romance Gradiva, uma Fantasia Pompeiana, história de um arqueólogo que se transporta para a Pompeia do ano 79 à procura de uma mulher com as feições de uma estátua pela qual ele ficou enfeitiçado num museu de Nápoles.

Essas duas referências podem ser úteis para preencher os vazios deixados por La Gradiva, filme de estreia da diretora de fotografia Marine Atlan. Também aqui temos estrangeiros visitando Pompeia e um personagem obcecado por uma fantasia. Um grupo de alunos franceses faz excursão educativa a Nápoles e deixa expostas suas erupções da adolescência.

O filme gira principalmente em torno de três personagens com os neurônios em obras. O irrequieto e assumidamente homossexual Toni (Colas Quignard) se droga e procura rastros de sua avó napolitana, que julga ter sido morta no terremoto de Nápoles em 1980. O andrógino e sempre cool James (Mitia Capellier-Audat) catalisa o desejo de meninas, mas nutre uma paixão platônica por Toem. Já a complexada Suzanne (Suzanne Gerin) passeia sua insegurança entre os colegas ou em sonhos quiméricos.

Junto com essa rede de sentimentos, La Gradiva monta um painel da situação da educação na França de hoje, tema explicitamente discutido pelos alunos numa sequência. A meu ver, a grande qualidade do filme está na forma como Marine Atlan constrói a figura do grupo. Afora Antonia Buresi no papel da professora entusiasmada com o tema da viagem mas exausta e também carente, os demais atores e atrizes são todos iniciantes. Atuam com uma espontaneidade cativante, de maneira tal que o filme volta e meia se confunde com um documentário sobre suas próprias aborrecências e inquietações.

Não nego que vi uma certa pulsão viscontiana nos personagens centrais, especialmente no destino trágico de um deles. Mas quase tudo se esvai em insinuações e descontinuidades. A crítica em geral adorou essa forma um tanto evasiva de retratar aqueles jovens. Tanto que La Gradiva levou o prêmio da Semana da Crítica de Cannes. Não foi o meu caso. A mim o filme pareceu predominantemente vago e dispersivo.

Além da direção do grupo, restam na memória algumas cenas como a performance da professora explicando o funcionamento do vulcão ou estimulando os alunos a interpretarem os afrescos da Villa dei Misteri. O passeio de câmera pelas estátuas do museu é igualmente memorável. E ainda as imagens de uma Nápoles ora espectral, ora buliçosa como sempre imaginamos.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/la-gradiva

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