Umas palavras de Guerín e Guimarães

José Luis Guerín, cineasta catalão residente entre Barcelona e Paris, é autor de alguns dos filmes mais cultuados pela cinefilia carioca extra-salas de cinema. Filmes como Tren de Sombras, En Construcción, En la Ciudad de Sylvia, Unas Fotos en la Ciudad de Sylvia e Innisfree circulam em cópias de DVD e são comentados com fervor. A flânerie de Guerín entre o documentário e a ficção, o passado e o presente do cinema, a narratividade clássica e a experimentação chegou com seu frescor muito bem-vindo à Mostra do Cinema Catalão, que rola até hoje (domingo) na Caixa Cultural (Rio).

Gardnier, Guerín, Guimarães

Ontem Guerín se juntou a Cao Guimarães e ao crítico mediador Ruy Gardnier para um bate-papo na Caixa. O mineiro Cao é outro que, apesar das enormes diferenças, também trabalha nas muitas frestas do audiovisual contemporâneo. Os dois já se conheciam de festivais pelo mundo. A conversa foi inteligente e muito simpática. Destaco a seguir alguns trechos que anotei, sem preocupação de transcrever literalmente as palavras de cada um (por isso vai sem aspas):

Guerín:  Parte interessante do cinema moderno está na hibridização entre documentário e ficção. Eu procuro um diálogo permanente entre as duas formas. É também uma maneira de escapar à tirania dos roteiros, já que não se exige roteiro de um documentário.

Guimarães: O cinema é um processo no tempo. Sou incapaz de pensar um filme. Roteiro para mim é literatura. Quando estou desenvolvendo um projeto, esta é a “ficção”. Na hora de filmar, tudo é documental, mesmo se tenho atores representando diante da câmera.   

Guerín: Parece-me arrogante inventar histórias para interessar a outras pessoas quando a complexidade de um vizinho ou de um personagem real já é tão fascinante.

Guimarães: Depois do longo domínio da narrativa temporal griffithiana, estamos voltando aos primórdios do cinema, com a explosão de telas e dispositivos no espaço (galerias, computadores, celulares).  

Guerín: Pensar é caro. Chaplin foi o único cineasta que conseguiu ser pago para pensar durante uma semana antes de começar as filmagens. Meu ideal seria fazer um filme e pensar ao mesmo tempo. Mas a realidade de filmar com uma equipe não deixa espaço para isso.

Guimarães: Os meninos do Grivo (dupla que faz a concepção sonoro-musical de muitos docs mineiros) me revelaram o poder do silêncio, quebraram minha tendência ao barroquismo. Nossa parceria se dá em todo o processo, da pré-produção à edição final. O som me liberta e me resgata do caos das imagens.

Guerín: Para nós, cineastas pobres, o som é muito importante por ser mais barato que as imagens. Uso muito o som para definir espaços e tempos nos meus filmes.      

Comecei minha história como fotógrafo, e tenho sempre em mente que o cinema é uma sucessão de fotografias. Gosto de trabalhar com uma foto diante de mim, interrogando-me sobre quais seriam os fotogramas anterior e posterior àquele. Vários filmes meus começam com uma foto.

Tren de Sombras foi minha celebração íntima dos 100 anos do cinema.

Victor Erice e El Sol del Membrillo foi uma influência decisiva para eu fazer En Construcción.

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