Cuaderno de viaje

Foto: Rosane Nicolau

Fundació Miró

Não, não deu pra dançar o flamenco. Foi devagarzinho, arrastando o joelho dolorido por uma lesão aparentemente irreversível, que passei duas semanas memoráveis na Espanha. 

Os três últimos dias foram em Madri, onde por vezes me senti numa cidade do terceiro mundo. O centro da capital estava sujo, calorento, tomado por imigrantes latino-americanos, asiáticos e africanos. Bem diferente do que vi nas últimas vezes em que estive por lá. Nos jornais, as notícias da crise econômica faziam franzir os cenhos dos espanhóis. Mesmo em Barcelona, onde a situação parece mais amena, a famosa praça do Parque Güell tinha aspecto de camelódromo marroquino, com vendedores e seus “tabuleiros” de pano com cordinha para fugir rápido da fiscalização.

Para escapar ao calor madrilenho, refugiei-me nos museus e num pequeno multiplex que ficava em frente ao hotel. Rever ao vivo As Meninas do Velázquez foi impressionar-me com a escala quase natural do quadro, que as reproduções não podem fornecer. O tamanho da cena contribui para nos sugar para aquele túnel de reflexividade que tanto inspirou as artes contemporâneas. O Museu do Prado tem um folheto destacando suas 50 “obras-primas”, o que facilita bastante uma visita generalista – que no meu caso durou cinco horas. Voltei também ao Museu Thyssen-Bornemisza e ao Centro Reina Sofía, este agora com um anexo modernérrimo que lembra um cubo de encaixes em vidro. No cinema, vi os novos blockbusters bollywoodiano My Name is Khan e italiano Baarìa, de Giuseppe Tornatore.

Experiência deliciosa em Madri foi comer no Mercado de San Miguel, perto da Plaza Mayor. O lugar foi transformado numa praça de alimentação tipicamente espanhola, com balcões para tapas e copas que cobrem toda a variedade culinária da cidade. Em matéria de repastos, entre os melhores da viagem estiveram o crocante cochinillo (leitão assado) do Mesón de Cândido, sob as arcadas do magnífico Aqueduto de Segóvia, e um monumental chuletón de ternera no Isidro de Salamanca, este o maior pedaço de carne que já vi num prato em toda a minha vida de carnívoro impenitente.

Segóvia, aliás, merece figurar no roteiro de todos os que admiram uma cidade medieval amável e tranquila. A paz que se sente em suas belas ruas e pracinhas dá vontade de não voltar nunca mais para o mundo da velocidade digital.

Foto: Rosane Nicolau

Segóvia

Uma relativa decepção nos adveio em Ávila, a cidade de Santa Teresa. Vistas de fora, principalmente do mirante de Cuatro Postes, as conservadíssimas muralhas justificam toda a fama, mas dentro delas o traçado urbano pareceu-me árido e atravancado. Como a maior parte dos turistas a visitam em excursões de meio dia, a cidade não oferece estrutura favorável a quem queira se demorar um pouco mais.

O oposto disso é Salamanca (foto à direita), lugar animado por duas universidades, intensa programação cultural e um dos mais fantásticos conjuntos de edificações medievais, renascentistas e barrocas da Europa. As igrejas, conventos e palácios, erigidos com uma pedra arenosa amarela da região, rebrilham ao sol até 10 horas nas noites de verão sob um céu turquesa, confirmando a fama de “cidade dourada e azul”. Quando saímos de Salamanca, estava começando mais uma edição do festival de artes Fàcyl, entre cujas estrelas se destacavam a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues e o tcheco Harun Farocki, que apresentava sua videoinstalação Immersion.          

Mas o foco principal dessa viagem foi mesmo Barcelona, que só havíamos visitado 22 anos atrás. A capital catalã mudou muito depois das Olimpíadas de 1992. A área portuária, antes degradada, converteu-se numa moderna promenade de recreação, consumo e arquitetura experimental que se estende da estátua de Colombo até o calçadão da Barceloneta, a Copacabana da Catalunha. A catedral da Sagrada Família já dispõe de um teto gótico espetacular, embora ainda prossiga em seu mitológico work in progress. O Palau de la Música Catalana justifica reservar com antecedência uma visita guiada. E por falar em cicerone, tivemos a felicidade de contar com a companhia do velho amigo Milton Coutinho, cônsul adjunto do Brasil e escritor de mão cheia (na viagem de volta, li seu primeiro livro de contos, X.Y.Z., editado no Brasil pela Sette Letras). Com ele e sua simpática esposa, a italiana Daniela, passamos momentos saborosos, inclusive diante das célebres paellas do restaurante Siete Puertas e tapas da Cerveseria Catalana.

Barcelona, claro, é Miró e Gaudí. Desse último, pudemos enfim visitar os interiores das Casas Battló e Milà, onde a fantasia do arquiteto dá asas a cada porta ou janela, pátio ou corredor. Barcelona foi também o charme do bairro Born, a cheirosa parafernália do mercado La Boquería, o profissionalismo dos espetáculos do Palacio del Flamenco, a aventura auditiva do contato com o idioma catalão.

Depois de tudo isso, voltar para casa foi um misto de saudade e renovada excitação. A temperatura mais fresca, a expectativa de uma Copa do Mundo e o volume de atividades que me espera por aqui confundem meus sentimentos. Por que somos tão limitados a ponto de não podermos estar em duas ou mais cidades ao mesmo tempo? A física – é ela que nos obriga às viagens.  

P.S. Em breve publicarei fotos da viagem no Webshots.                           

7 comentários sobre “Cuaderno de viaje

  1. Carlinhos,
    lógico que é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo: basta ir ao cinema!
    bj
    Susana

  2. Adorei como descreve a crise no cotidiano
    “Camelódromo marroquino” é óóóótimo!

    Aguardo os webshots

    Muito legal acompanhar suas peregrinações pelo mundo
    Seja bem vindo, mano véio

    Que recupere logo essa p… desse joelho
    Um beijão
    Saudades do mano
    Deco

  3. É sempre bom saber notícias do país que mais adoro depois do Brasil, onde vivi por 2 anos. Só de ler, me transporto para lá. Se não fosse a condição de ser estrangeiro, que não me agrada em nada, eu ainda estaria lá. Costumo dizer que minha vida é antes e depois da Espanha, e especialmente, de Barcelona. bjs

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