Musas europeias e gângsteres afrobrasileiros

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O projeto de A ACADEMIA DAS MUSAS nasceu de filmagens descompromissadas das aulas de Filologia do professor Rafaelle Pinto na Universidade de Barcelona. A partir de certo ponto, professor, alunos e o diretor José Luis Guerin enveredaram numa experiência cinematográfica e pedagógica que resultaria nesse filme muito elogiado pela crítica europeia. O processo criativo me lembrou o de “Ela Volta na Quinta”, em que André Novais Teixeira criou uma história ficcional a partir da realidade familiar de seus pais. No filme de Guerin, o professor dá um curso sobre a importância das musas na poesia clássica e investiga ecos dessa prática na busca da beleza contemporânea. Aos poucos, vamos desvendando uma teia de relações entre Rafaelle e duas ou mais de suas alunas, fazendo com que a ideia de musa deslize para uma concepção bem mais carnal do que seja a inspiração. Desde a Grécia antiga, a educação como sedução é um paradigma do vínculo entre mestre e discípulos.

Depois de sair no encalço da beleza feminina no silencioso “Na Cidade de Sylvia”, Guerin retoma o tema através da palavra abundante. A ACADEMIA DAS MUSAS é um debate incessante, mesmo quando se disfarça de conversa, sobre amor, desejo, literatura e Natureza. As palavras são o veículo das paixões, seja com Dante e Beatriz, seja com os amantes que hoje flertam pela internet. A admiração pelo saber se converte muito facilmente em interesse amoroso. Daí que toda a intelectualidade em pauta no filme não tem nada de abstrato, mas se refere a experiências muito concretas de ciúme, tesão, abandono, etc.

Guerin trabalha sem atores profissionais. Rafaelle e sua esposa são vividos pelos próprios, enquanto as alunas protagonistas são jovens intelectuais ligadas à Universidade de Barcelona. A filmagem frequente de conversas através de vidros mescla os rostos aos reflexos da cidade, criando ao mesmo tempo um distanciamento e uma textura poética. Duas viagens à Sardenha e a uma gruta de Nápoles abrem novos subtemas dentro da intensa discussão central. Acompanhar esse híbrido de documentário e ficção ensaística requer uma boa disposição para a conversa erudita e elegante.



O coletivo paulista Heavybunker pretende fazer filmes “que não se pareçam com nenhum outro”. Seu primeiro longa, MUNDO DESERTO DE ALMAS NEGRAS, não cumpre o prometido, embora parta de uma premissa interessante, parecida com o do filme americano “A Cor da Fúria”: inverter as cores da sociedade, mostrando uma São Paulo em que os negros ocupam o centro e a elite, enquanto os brancos são serviçais e vivem na periferia. Isto posto, o resto não é nada diferente do que vemos, senão no cinema, nos clichês da publicidade e do filme de gângster.

Supostamente na década de 1990, um jovem advogado ambicioso (Sidney Santiago Kuanza) concorda em entregar um celular a bandidos presos no Carandiru, mas é assaltado no caminho e entra na mira da organização criminosa (branca) que aterroriza São Paulo. Entre uma e outra rápida cena de ação, o filme de Ruy Veridiano se estende em ritmo lerdo, situações teatralizadas, muitas poses amadorísticas e cenas ralentadas com jeito de anúncio sofisticado. Qualquer impressão de realismo é afugentada pela estilização permanente de maquiagens, cabelos, figurinos e posturas inspiradas no afrochique. No discurso paralelo ao filme, a Heavybunker almeja uma dimensão política para essa história de racismo às avessas. Ativistas e intelectuais afrobrasileiros participam do elenco, mas sempre num tom irônico e muitas vezes pedante, que mais dilui do que adensa um eventual recado político.

A trilha sonora comenta a ação, reunindo de maneira estapafúrdia Tom Jobim e Dexter, “BR-3” e “Disparada”, Luiz Gonzaga e Itamar Assumpção, Os Mutantes e Villa-Lobos, entre outros. MUNDO DESERTO acaba sendo de fato “um filme diferente”, mas não que isso seja necessariamente uma qualidade. É antes um remix pretensioso de ideias bem antigas.

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