Cinema da perversão

 

 

 

 

 

Tarantino geralmente me coloca em xeque quanto a minhas reservas éticas e estéticas. Enquanto vejo seus filmes, pego-me perguntando até que ponto a consciência da vulgaridade anula a própria vulgaridade. Pois esse nerd-cineasta não lida com seres humanos, nem com os dados da realidade. Seu mundo é o cinema – mais exatamente o lixo do cinema de várias épocas, reciclado como perversão. Por isso adoro seus primeiros filmes: Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Jackie Brown. Eles transformavam a vulgaridade em ouro cinematográfico. Por isso gosto bem menos dos recentes: Kill Bill por ser apenas a máquina-Tarantino funcionando no piloto automático; Bastardos Inglórios por ser a aplicação problemática dessa máquina de moer sentidos a um contexto histórico que a rejeita por natureza.

À Prova de Morte (Death Proof) mais uma vez me deixou à beira de um abismo interior. (Atenção! Este texto contém spoilers daqui em diante). Quanta estupidez nessa história de um dublê psicopata que não suporta demonstrações de afirmação feminina e atira seu carro mortífero contra as inimigas. Quanta estultice nesses diálogos e nessas estradas que não levam a lugar nenhum. Mesmo assim, surpreendo-me rindo e excitando-me com a vulgaridade de tal forma assumida e oferecida numa bandeja de descompromisso.

Esse filme, concebido como parte de um programa duplo (com Planeta Terror, de Robert Rodriguez) em homenagem às sessões dos cinemas-poeira dos anos 1970, recria os defeitos técnicos e a banalização do sexo e da violência associados com o filme de exploitation. Para concretizar essa ponte entre dois tempos, Tarantino faz conviverem signos atuais e de quatro décadas atrás, de tal maneira que o espectador se sente numa espécie de limbo temporal. Na verdade, estamos fora do tempo do mundo. Estamos no tempo do cinema, das referências, citações e recriações. De alguma maneira, estamos nos anos 80, quando esse tipo de linguagem conheceu o seu auge (quem ainda se lembra do pós-modernismo levante a mão).

Se encontro algum prazer nesse amontoado de sandices é porque algo de perverso dentro de mim acolhe isso bem. Tarantino é um pervertido que procura conversar com nossas perversões. A perversão pressupõe o desvirtuamento de algo “normal” ou positivo, uma inversão. É aí onde Tarantino aposta suas fichas. À Prova de Morte traz dublês e gente do quinto escalão do cinema como personagens centrais. O filme opera suas perversões através de dualidades bem nítidas, já a partir da fratura da narrativa em duas partes.

A primeira parte nos situa num universo de licenciosidade e erotismo, simbolizado principalmente pelos pés das quatro amigas que se aventuram por bares de estrada. Subitamente, a atmosfera de sensualidade é atravessada pelo pé do Stuntman Mike (Ken Russell)  no acelerador de sua máquina mortífera. Tudo então se perverte. Os movimentos das cabeças e dos corpos das moças que dançavam serão reapresentados como movimentos de morte. Quando a segunda parte começa, estamos prontos para esperar outra saraivada de malícia sexual e violência extrema, mas novos dados vão torcer nossa expectativa no rumo de uma catarse. Aliás, uma catarse que vai culminar com a ação justamente de um pé no plano final do filme.

Tudo o que Tarantino lança como fruição reaparece como perversão. Seus hipervilões sempre encontrarão supervingadores aptos a executar uma revanche. São pulsões elementares que se digladiam na tela e no espírito do público. Nesse sentido, não há como ser indiferente aos seus filmes. Há quem odeie, há quem cultue. Eu me divirto mesmo quando não gosto. Além disso, seus filmes me lançam em estado de auto-observação. Quanto de pervertido, afinal, há em todo espectador de cinema?        

Uma perversão a mais: no interessante site do filme (Grindhouse), é possível criar o seu próprio trailer.       

Leia também o texto de Mario Abbade, publicado no folheto da pré-estreia do filme com a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. 

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