Hitchcock italiano

Meu colega Mario Abbade, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, é o curador da mostra Dario Argento e seu Mundo de Horror, em cartaz no CCBB, dentro do Festival do Rio. A seguir, um texto dele sobre o “Hitchcock italiano”:

Apesar do contato com os filmes do cineasta Dario Argento anos atrás, por intermédio das nostálgicas fitas importadas de VHS, a primeira vez que assisti a uma produção do diretor italiano em um cinema foi em 1987. Essa experiência aconteceu com Terror na Ópera, na finada sala Condor Copacabana no Rio de Janeiro. A trama nonsense, com motivações e personagens pouco convincentes, representava um ensaio alegórico e voyeurístico sobre o processo sombrio criativo da mente, que surge por meio das personagens (as vítimas ou os algozes) criadas por ele. Além dessa característica, as influências freudianas da literatura de Edgar Allan Poe e o livro O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux, estão presentes em Opera (título original).

Mais de duas décadas se passaram e a reflexão sobre a obra gótico-barroca de Argento vai além do giallo, estilo que lhe foi concedido o título de “dono”, devido a uma série de filmes icônicos concebidos por ele nos anos 70: compostos por psicopatas, assassinatos, trilha sonora inquietante, muito sangue e um posicionamento da câmera de forma a criar pontos de vista absolutamente impensáveis. Se “noir” é a definição em língua francesa para um estilo que vale tanto para o cinema como para a literatura, o mesmo ocorre em italiano com o “giallo”. O primeiro, que significa “preto” em francês e faz referência à cor da capa dos livros pulps do século passado, possui a mesma ideia do “giallo”, ou “amarelo” em italiano, em alusão à cor das capas dos livros de mistério mais populares. Se Mario Bava foi o responsável pelo surgimento de algo que um dia poderia ser um subgênero no cinema, com o seu La Ragazza che sappere troppo, de 1961, Dario Argento veio para transformar esse rascunho em obra completa. Da mesma forma que o Western Spaghetti de Sergio Leone brincava com os tradicionais faroestes americanos de John Ford, o giallo de Argento flerta com os filmes de suspense do mestre Alfred Hitchcock. Após assistir a Prelúdio para Matar, o cineasta britânico declarou: “Esse jovem italiano está começando a me preocupar”.

De fato, Argento é merecedor dos muitos apelidos carinhosos que recebe. Os mais conhecidos, “Hitchcock gore” e “Walt Disney às avessas”, soam humorados, mas estão longe de definir o poder de se fazer arte com os temas extremamente desconfortáveis de seus projetos. Seus filmes se distinguem pelas várias sequências elaboradas com diversos planos inusitados, objetivando abordar os mistérios da mente humana e os transtornos propiciados pelo medo e a angústia. Esse conceito é desenvolvido através de histórias policiais, políticas e até sobrenaturais, em que o sexo, o mistério e a violência são os responsáveis em conduzir a narrativa caracterizada pelo improvável. O tom propositalmente farsesco é corroborado pela pouca preocupação com a encenação dos atores, com o adendo de uma dublagem questionável.

Apesar de todas essas particularidades e relevância, a difusão da filmografia de Dario Argento não é expressiva no Brasil, resumindo-se a alguns parcos títulos lançados em DVD por aqui. Essa retrospectiva é uma oportunidade única de apresentar todas as produções dirigidas por Argento para o cinema e TV em seu formato original. E levar a sua arte ao público é aproximá-lo e oferecê-lo a uma plateia que ainda não se viu diante da magnitude de seu trabalho.

Mario Abbade

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