O ‘Amarcord’ de Jurandyr Noronha

Existe uma cidade com esse nome no norte da Bahia, perto da fronteira com o Piauí. Mas não é essa a Remanso em que Jurandyr Noronha, aos 96 anos, fincou o esteio do seu romance Bravos Companheiros (EMC Edições), a ser lançado em noite de autógrafos na próxima quinta-feira, dia 26, a partir de 19h30, na Livraria da Travessa de Ipanema. A Remanso de Jurandyr é mais ou menos como a Rimini de Fellini em Amarcord: livre território de lembranças, província quase de sonho e povoada por personagens característicos. Dessa cidade fictícia ele parte para contar uma pequena história do Brasil entre 1921 e 1960.

Lá estão os comunistas Donato e Nicola distribuindo panfletos clandestinos do Partidão; o fotógrafo judeu Isaac driblando tabus para casar-se com a mulata Maria Rosa; o gráfico Spencer Valverde tirando da cartola a ideia de criar o primeiro jornal da cidade; o Padre Flávio tentando conciliar as divergências no seu rebanho; o alemão Helmut e sua família fazendo o possível para se assimilar à paisagem cultural brasileira. Questões que o país viveu intensamente na primeira metade do século 20.

Remanso vê aos poucos chegar a modernidade: além da Gazeta, um aeroporto fluvial, uma hidrelétrica, uma fábrica de laticínios, o rádio, a televisão, uma visita de Getúlio Vargas e outra do comunista Apolônio de Carvalho. E junto com isso, os grandes conflitos que abalaram o Brasil e o mundo. Jurandyr Noronha, além de decano do documentarismo brasileiro e pioneiro na militância pela preservação dos materiais cinematográficos, sempre foi um amante da história bélica. Bravos Companheiros faz uma súmula das efemérides militares do período, desde o episódio dos 18 do Forte (Copacabana, 1922) até a Revolução Cubana, passando pela Revolução de 30, o movimento paulista de 32, a Coluna Prestes, o levante integralista, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. De caso a caso, Jurandyr detalha os armamentos e veículos utilizados, conta as baixas e comenta as performances de cada lado.

Da mesma forma, relata sucintamente uma seleção de eventos que inclui o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra e do primeiro filme sonoro brasileiro, a coqueluche causada pela radionovela O Direito de Nascer, o surgimento inovador de Rio 40 Graus, a construção de Brasília, etc. Vez por outra, os dois campos se cruzam, como no episódio da atriz Lélia Abramo e do crítico Mário Pedrosa trocando tiros com os protofascistas de Plinio Salgado.

Os grandes acontecimentos rebatem inevitavelmente em Remanso, dividindo opiniões e engajando alguns habitantes. A estrutura do romance é um constante vai-vem entre o macro e o micro, o mundo e a província. Alguns personagens podem sugerir traços biográficos do autor, nascido e crescido em Juiz de Fora (MG). Ubiratan, que nasce na primeira página, pode personificar seu amor pelo cinema e a aviação. Os oficiais Cícero e Ewandro permitem a Jurandyr incorporar seus conhecimentos de quando frequentava a Escola Militar de Realengo. Mas tudo isso vem diluído numa fabulação politicamente equidistante, na qual Remanso condensa fatos e dilemas gerais do país na época.

A cronologia atende ao rigor de historiador de Jurandyr. Em sua pesquisa, ele exuma ocorrências pouco difundidas. Uma delas é a carga bélica, em plena Copacabana, contra o navio alemão Baden, que teimou em deixar o Rio durante um bloqueio da Revolução de 30. Outra é o afundamento de outro navio alemão pela força aérea inglesa durante a II Guerra, quando pereceram cerca de 6.000 prisioneiros judeus, comunistas, negros, homossexuais, ciganos, etc. Sobre esta tragédia, Jurandyr não hesita em comentar: “significou muitos dias sem trabalho para os campos de concentração de Ravensbruck e Dachau”.

Bravos Companheiros é, assim, um misto de história militar e fábula provinciana, um tipo de livro que não se faz mais hoje em dia. Justamente por isso, tem um sabor incomum, uma singularidade que os muitos descuidos de revisão não botam a perder.

TRECHO DE “BRAVOS COMPANHEIROS”

A Cinelândia, aos sábados à tarde, fervilhava de gente. Ela estendia-se da praça Marechal Floriano às ruas Álvaro Alvim e do Passeio.
Na praça, ficavam os cinemas Odeon, Pathé, Capitólio e Império; na Álvaro Alvim, o Rex e na do Passeio, as casas maiores, o Palácio, o Metro e o Plaza.
Era realmente a Cinelândia; isso nos anos 30…
Cartazes coloridos anunciavam nomes famosos: John Gilbert, Greta Garbo, também Mireille Ballin e Jean Gabin, pois muitos eram os admiradores dos filmes franceses, isso sem contar o pessoal dos desenhos animados…
Sorveterias famosas como a Americana, com grandes vidros, através dos quais via-se o interior fortemente iluminado, as mesas inteiramente ocupadas por seus frequentadores sorridentes.
Uma gente via-se que com vestidos do ateliê de madame Lou e ternos do alfaiate Tolipan, encontrando conhecidos, fazendo o footing como ainda se dizia…
As sessões das quatro eram as mais chiques e então todos corriam para as filas dos filmes que iriam assistir.
Tão grande era a repercussão destas tardes que os integralistas resolveram aproveitá-las como propaganda e divulgação da doutrina que defendiam. Passaram a ir para lá em grandes grupos com as suas camisas-verdes, alguns mesmo com exemplares de A Ofensiva a serem oferecidos.
A cada sábado, entusiasmados com as notícias que tinham dos companheiros, aumentava o número dos camisas-verdes. Ofereciam lugar nas filas e procuravam fazer amizades. No fim de certo tempo já demonstravam estar sendo aceitos, saudavam com o braço levantado e falando anauê. E até colocavam nas lapelas dos recém-conhecidos os distintivos com o mapa do Brasil e o sigma. Muitos saíam com eles.
Daí até a um núcleo para inscrição não demorava.
Os comunistas observaram e não gostaram. Ocorreu aos estudantes da célula da Faculdade Nacional de Direito uma ideia maquiavélica: Compraram muitas galinhas brancas dando-lhes um banho de anilina verde.
Conta-se que a isso não estaria alheio Mário Lago, mais tarde letrista de sambas antológicos.
No primeiro sábado, correram todos para a Cinelândia, oito rapazes designados para a frente de cada um dos oito cinemas. Assim, a hora da saída da “sessão das quatro”, as galinhas coloridas foram soltas.
Foi um espetáculo grotesco, os integralistas atarantados em meio à confusão e às gargalhadas. Então gritos se ouviram: “Galinha verde! Galinha verde!… ”A arma do ridículo foi eficaz, pois a alcunha se espalhara pelo Brasil afora…

 

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