Freiras grávidas e feministas lésbicas

Pílulas críticas sobre os filmes AGNUS DEI e UM BELO VERÃO

Baseado em história real da 2ª Guerra na Polônia, AGNUS DEI descreve a relação entre uma médica francesa comunista da Cruz Vermelha e as religiosas de um convento traumatizado por invasões de soldados seguidas de estupros, de que resultaram diversas freiras grávidas. O roteiro de Pascal Bonitzer (célebre roteirista, diretor e ex-crítico da Cahiers du Cinéma) começa vacilante, custa um pouco a conquistar nosso interesse, mas evolui com eficácia a partir do ponto em que a situação começa a produzir seus desdobramentos. A relação entre a Dra. Mathilde (Lou de Laâge) e as freiras parte da ajuda hesitante para uma identificação que leva à autêntica cumplicidade. Ao mesmo tempo, a sucessão de partos e a necessidade de ocultá-los faz tanto aflorar o instinto maternal em ambiente interditado, quanto a rejeição radical desse instinto. E ainda o crime hediondo como forma de preservar a ordem religiosa e institucional.

O drama é pesado e tem poucos alívios, todos eles a cargo de um médico judaico que corteja Mathilde e é interpretado por um atual “chéri” da cena teatral e cinematográfica francesa, Vincent Macaigne (agradeço essa informação ao colega crítico João de Oliveira). A personagem central, na verdade, é a Irmã Maria (Agata Buzek), uma espécie de anjo da guarda das demais, que faz a ponte entre o tabu e as imposições do real. Mesmo sem alcançar grande originalidade, o filme de Anne Fontaine toca num aspecto menos explorado do horror da guerra – das forças tanto de ocupação quanto de libertação – e aborda uma contradição limítrofe do dogma religioso. O que fazer da vida quando ela brota do indesejado ou do interdito? Nesse sentido, “Les Innocentes” (título original) dialoga com “Paulina”, que segue em cartaz.



Em A BELA ESTAÇÃO, a história de amor começa com os sinais trocados: é a camponesa retraída Delphine (Izïa Hegelin) que seduz a citadina e arrojada Carole (Cécile de France) para um romance homossexual. Estamos em Paris, 1971, quando as barricadas do feminismo e da liberação gay começavam a ganhar as ruas e a revista Les Temps Modernes, editada por Sartre, não saía da mesa de cabeceira dos jovens progressistas. A paixão de Delphine e Carole se faz atravessar por esse contexto, numa frequente discussão do papel social e econômico das mulheres. E é justamente isso o que vai selar o destino do casal entre os apelos da modernidade parisiense e o chamado atávico das tradições rurais.

Realizado em grande parte por mulheres, tendo à frente as companheiras Catherini Corsini (diretora) e Elisabeth Perez (produtora), LA BELLE SAISON se beneficia muito da boa química entre as atrizes principais. Fator importante de empatia é o fato de que acreditamos naquele amor, seja na rua, na sala ou na cama. A belga Cécile de France, sobre seu quinto papel do gênero, disse orgulhar-se de carregar o estandarte de “a lésbica do cinema francês”. Mas ali tem algo mais que um mero filme LGBT. Embora não se trate de obra de autor à moda de Bertolucci ou da Nouvelle Vague, é um entretenimento de fundo político bastante interessante. De um lado, põe em xeque o regime de uma militante quando tisnada pelo fogo da paixão; de outro, exibe a chegada do feminismo, à sua maneira, no domínio dos fazendeiros. Eram, de fato, tempos modernos.

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