Festival do Rio: Política, Manual de Instruções

Fundado em 2014, o partido Podemos rapidamente abriu espaço na esquerda espanhola, superou os partidos tradicionais em repercussão nas redes sociais e tornou-se a terceira força política do país. Para a maioria dos espanhóis, isso foi um fenômeno típico da era dos jovens conectados. Mas por trás do jeito descontraído de seus líderes (jeans, tênis, rabo de cavalo) estava uma habilidosa estratégia eleitoral e de imagem, construída por cientistas políticos, ativistas e professores universitários.

POLÍTICA, MANUAL DE INSTRUÇÕES circula entre as vitrines e os bastidores do Podemos para mostrar como se aprende a fazer política, tanto para fora como para dentro. Desfrutando de acesso privilegiado a reuniões e conversas particulares, além de eventos públicos, o diretor Fernando León de Aranoa (cultor de filmes sobre a classe trabalhadora) fez a radiografia do partido desde sua primeira “assembleia cidadã”, em 2014, até a conquista de 69 cadeiras no Parlamento nas eleições gerais de 2015.

Sem qualquer viés propagandístico nem crítico, o filme procura colher toda a variedade de experiências vividas pelas figuras centrais do Podemos. De um lado estão o carisma contemporâneo de seus intelectuais, a disposição de criar um lugar próprio à margem da polarização direita-esquerda (embora opondo-se firmemente ao modelo neoliberal e defendendo direitos sociais) e a fibra de não se abater com os revezes do caminho. De outro, as dissidências internas, as acusações de populismo e de influência bolivariana, os ataques que passaram a receber quando deixaram de ser apenas um grupo de rapazes e moças que protestavam.

É um privilégio haver um filme que flagre a gestação de um partido de esquerda e os seus primeiros impasses. Como dar o salto do ativismo para a realpolitik? Como preservar o frescor de uma proposta quando se entra no cenário das grandes disputas de poder? Como conciliar distintas correntes de pensamento e estratégia sem consumir todas as energias num eterno debate interno? Como lidar com as demandas variadas de um país em déficit democrático e social?

Essas são questões que em 2017 continuam a afligir Pablo Iglesias e seus pares no Podemos, assim como a todo o espectro da esquerda na América Latina e no mundo. O documentário de Aranoa, extremamente bem montado com base na palavra caudalosa dos protagonistas, é um documento histórico de imensa importância e inspiração política.

Pena que no Brasil não tenhamos um corpo de ânimos e ideias semelhante. Até temos um Podemos (o antigo PTN), mas o nosso – oh, lástima! – é de direita.

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