Festival do Rio: El Pepe, uma Vida Suprema

“A maior fonte de direitos políticos é a revolução”. A frase, dita com a pachorra habitual por Pepe Mujica, soa como um urro na boca de um gato. Essa distância entre as palavras e a figura que fala é justamente o que fascina e desconcerta em Mujica. O documentário de Emir Kusturica está cheio dessas aparentes contradições. O velho homem do campo cuida de suas flores enquanto diz que não se arrepende dos assaltos e expropriações que cometeu na luta contra a ditadura uruguaia: “Mais grave que roubar um banco é fundar um banco”.

A admiração de Kusturica pelo que ele chama de “último herói político” transparece em cada frame de EL PEPE – UMA VIDA SUPREMA. O diretor sérvio até exagera em colocar-se no quadro, ouvindo seu personagem com um misto de encanto e cumplicidade. Kusturica com seu charuto, Mujica com seu chimarrão, uma corrente de camaradagem emanando entre os dois. Sempre por perto, Manuela, a cachorrinha de Mujica.

A política com afeto é uma das várias características que aproximam Mujica de Lula – que, embora sem ser citado em nenhum momento no filme, é para nós brasileiros uma lembrança e um paralelo inevitáveis. A grandeza de Mujica o leva a valorizar os 12 anos passados na prisão (encenados como eficiente thriller carcerário em Uma Noite de 12 Anos). Foi um aprendizado fundamental para o homem sábio e sereno que ele é hoje, aos 83 anos. “O homem aprende mais com a dor e as adversidades do que com o triunfo e as coisas fáceis”, ensina.

Talvez esteja aí uma vocação trágica dos latinos mais ao sul, cultores do tango. Para Mujica, “é preciso te sofrido para começar a gostar de tangos”. Essa é a sonoridade dominante no filme, ajudando a enfatizar uma dimensão humana da política. O casal Pepe e Lucía Topolansky protagoniza cenas de grande ternura, em que o amor e o compartilhamento das mesmas utopias sela uma unidade admirável.

Seja dirigindo seu célebre fusca azul, seja ensinando crianças a plantar ou indo ao açougue comprar carne para a cadelinha, Mujica é o epíteto do grande homem simples, do estadista que nunca deixou de ser um lavrador.

Kusturica usa basicamente três eixos narrativos: o casal, as lembranças do longo aprisionamento (com participações dos ex-colegas de cárcere Eleuterio Fernández Huidobro e Mauricio Rosencof) e as celebrações do último dia do governo de Mujica, em 2015, quando devolveu a faixa ao seu antecessor e sucessor, Tabaré Vásquez. Embora o filme tenha uma estrutura bastante errática, com temas se atravancando e sem maiores cuidados dramatúrgicos, esses três eixos dão conta de um retrato abrangente e extremamente simpático de El Pepe.

Alguns equívocos de construção são bem evidentes. Note-se, por exemplo, a inserção falsa de um close de Obama com o cenho franzido enquanto Mujica lhe assegurava que os latinos iriam encher a paisagem humana dos EUA, quando na verdade o presidente americano recebia as falas com um sorriso camarada. Ao se referir às ditaduras sul-americanas, a montagem cobre referências ao Brasil com imagens de outros países, evidenciando descuido no trato com os materiais de arquivo. O histórico de Mujica, aliás, é tratado com superficialidade e ilustrado preguiçosamente por cenas de O Estado de Sítio, de Costa-Gavras.

De qualquer maneira, Kusturica presta um belo serviço à consciência estrangeira quanto à política latino-americana num momento em que o legado de presidentes progressistas está sendo achincalhado pelo avanço da direita e do neofascismo. Nesse sentido, cabe refletir sobre mais uma frase lapidar de Mujica que ouvimos no filme: “Na América Latina não há soluções; só há buscas”.

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