Festival do Rio: Dina

DINA pode bem ser assistido como um filme de Wes Anderson ou um Todd Solondz light. Personagens fora do comum em ambiente suburbano, levando a vida a meio caminho entre a tragédia e a ternura. A diferença é que Dina Buno e Scott Levin existem de verdade na periferia da Filadélfia. Eles são autistas e pretendem se casar.

Aos 46 anos, Dina tem uma auto-estima de menina vaidosa que não parece afetada por um passado doloroso. Ela perdeu o primeiro marido para um câncer e levou oito facadas de um namorado posterior. No amável Scott, encontrou o parceiro quase ideal. Precisa apenas retirá-lo do seu mundinho interior e incentivá-lo a descobrir o sexo. A tarefa não é fácil – e gera cenas de um humor doce e cativante.

Os diretores Dan Sickles e Antonio Santini estabeleceram uma rara parceria com Dina e Scott para filmar o cotidiano do casal. Lá estão as primeiras experiências de morar juntos, a festa de noivado, as despedidas de solteiro (ele no boliche, ela com amigas e um stripper), o casamento e a decisiva lua de mel. Conversas íntimas e ajustes de sintonia entre os dois ocorrem diante da câmera sem qualquer constrangimento. De certa forma, a deficiência psíquica contribui para essa particular indiferença à situação de filmagem. Em torno deles, uma cultura suburbana movida a lixo televisivo, junk food, mitologias hollywoodianas, infantilização de adultos e muita obesidade.

Não há um limite claro entre o que foi vivido espontaneamente e o que foi feito em função de determinadas cenas. Isso, porém, logo perde qualquer sentido, tal é a franqueza e, diria mesmo, a pureza com que eles – Dina principalmente – compartilham suas alegrias e angústias. A narrativa é arquitetada como num filme de ficção, com ações paralelas, cortes em continuidade e a revelação gradual das condições dos personagens.

O prêmio de melhor doc em Sundance deve tanto à simpatia do casal, quanto a essa proximidade com o que os americanos chamam de “filme narrativo” em oposição ao documentário. Algumas acusações de exploração dos handicaps de Dina e Scott soam exageradas perante o tratamento frontal mas cuidadoso dispensado pela direção.

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