Callas, uma célebre mulher comum

MARIA CALLAS EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS

O público teve uma relação de amor e ódio com Maria Callas. O ódio culminou no ano de 1958, quando a prima donna foi despedida do Scala de Milão e linchada artisticamente depois de interromper uma ópera em Roma diante do presidente da Itália. No mesmo ano, seria demitida também do Metropolitan de Nova York.

O amor, contudo, prevaleceu. La Callas (1923-1977) continuou sendo a maior diva do canto lírico mundial. O fotógrafo e cineasta francês Tom Volf é um desses fãs ardorosos, mesmo sem ser um amante de ópera. Volf já publicou três livros de pesquisa biográfica e iconográfica sobre Maria e lançou no ano passado o documentário MARIA CALLAS EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS (Maria by Callas).

Como sugere o título, trata-se de um perfil narrado em primeira pessoa, sem auxílio de narração ou entrevistas de terceiros. À exceção de um depoimento de arquivo da sua professora de canto, Elvira de Hidalgo, e de trechos de cartas e memórias lidos por Fanny Ardant, tudo o que ouvimos vem da própria voz de Callas. Com entrevistas e depoimentos da cantora à TV, cenas de bastidores e excertos de apresentações nos palcos, Tom Volf montou um painel imersivo e magnetizante.

O retrato é de uma mulher ora esfuziante, ora sombria, que dizia “eu preciso me lembrar mais frequentemente de que sou feliz”. Por várias vezes teve que suspender performances por problemas de saúde. Tida como tempestuosa e imprevisível, era ao mesmo tempo tímida e costumava se dizer uma mulher comum que gostava de ver TV e colecionar receitas. Mas prezava também o grand monde. Tanto que, ao casar-se com o “amigo” Aristóteles Onassis, não hesitou em trocar os palcos por uma vida de mera celebridade e esposa-troféu.

Tom Volf não é tão direto assim como estou falando, mas tampouco doura a pílula ao narrar a montanha-russa da vida de Callas. O despertar do romance com “Aristo”, por exemplo, é mostrado com o charme popular de uma fotonovela, enquanto a separação (Onassis a trocou por Jackie Kennedy sem sequer avisar) aparece numa nuvem de mágoa e depressão.

Os apreciadores do maior soprano da História vão se regalar com árias inteiras, como a Casta Diva, L’Amour est un Oiseau Rebelle e Vissi d’Arte. Em cenas como essas, o espetáculo se oferece nas expressões do rosto de Maria, um rosto em que tudo era grande – boca, nariz, olhos, orelhas. Os closes revelam a intensidade dramática e a elegância com que ela entoava seus agudos e colloraturas.

Para os cinéfilos, há o presente adicional de cenas da filmagem de Medea na Capadócia, com Pasolini dirigindo Callas em sua única atuação cinematográfica.

Por alguma razão de produção ou de seleção, pouco se vê de Maria contracenando com outros cantores em óperas. As apresentações de destaque são solos de concerto, onde o foco se concentra nela. Talvez seja mais uma forma de ressaltar sua qualidade única, sua proeminência incontestável.

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