Lentas canções do trauma

ESTAÇÃO DO DIABO

Duração é tudo no cinema do filipino Lav Diaz. Para quem já realizou três filmes de 9 horas cada, as quase quatro de ESTAÇÃO DO DIABO parecem bastante econômicas. Para que a duração se estenda a tal ponto, as cenas são longas, os movimentos dos personagens em geral são lentos e a impressão de letargia é reforçada pela fixidez da câmera em sequências quase todas sem cortes internos. Trata-se de levar o espectador a sentir a passagem – ou a não passagem – do tempo.

Lav Diaz é tido como um expoente do “cinema do trauma”, uma vez que a maioria de seus filmes lida com as marcas deixadas pelas sucessivas ditaduras e a pobreza do seu país. A duração, portanto, procura exprimir o período de latência do trauma, o esgotamento dos recursos de um sobrevivente e o lento colapso psicológico do personagem (ver resumo da tese de Nadin Mai sobre o assunto).

ESTAÇÃO DO DIABO se passa nos anos 1970, durante o governo de Ferdinand Marcos (no filme substituído pelo fictício Chairman Narciso, que literalmente tem duas caras), mas alude por via indireta ao atual e igualmente sanguinário ditador Rodrigo Duterte. Uma milícia paramilitar, comandada por uma oficial impiedosa, impõe o terror numa remota comunidade rural, perseguindo todo pensamento humanista e progressista. As demais personagens centrais são os perseguidos, dotados de função alegórica: um poeta (a arte), um professor (o conhecimento), uma médica voluntária (a compaixão) e uma pobre mulher que perdeu marido e filho para a milícia (a gente comum).

O estilo remonta aos filmes anteriores do diretor. Imagens preciosistas em preto e branco, contraluzes violentas, angulações distorcidas que enfatizam as linhas diagonais e movimentação de atores bastante teatral. A grande novidade é que, com esse superlonga, Diaz criou talvez o primeiro slow film musical. Ou antimusical, se quiserem.

Como num Jacques Demy sem orquestra e sem um pingo de pressa, o elenco se expressa e contracena cantando a capella. Melodias rudimentares e repetitivas se sucedem em diálogos, lamentos, cenas de intimidação e tortura, na forma de solos, duetos, tercetos e coros. Há até uma personagem, vivida pela cantora Bituin Escalante, que encarna a voz da consciência do poeta. Vários momentos se inclinam para a performance, inclusive com plateias assistindo dentro da cena. O indigesto “Talampunay Blues” acompanha uma terrível sequência de estupro consentido após a mulher ser obrigada a tomar uma certa bebida. Talampunay é uma flor a que se atribuem efeitos alucinógenos.

Todo o filme se passa numa espécie de limbo entre a crueza da violência política e um território mítico-imaginário do povo filipino – o que dificulta a assimilação por um público mais distante. A tarefa se torna ainda mais árdua pelo esgarçamento dos tempos e a incansável repetição das estrofes das canções (todas compostas por Diaz, que também editou o filme).

Mais do que os outros filmes que já vi desse prestigiado cineasta (leia aqui e aqui), ESTAÇÃO DO DIABO me pareceu exigir demais da paciência do espectador. Mas aqui estamos diante de duas opções: ou se desfruta do filme como uma experiência limítrofe de dilatação e reiteração, ou se o toma como uma penitência.

2 comentários sobre “Lentas canções do trauma

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