Coutinho como nunca antes

Como tantas coisas bonitas, era para ser em abril. Como tantas coisas queridas, era para ser motivo de um grande abraço coletivo. Mas, com a pandemia, a versão carioca da Ocupação Eduardo Coutinho acabou adiada e abre, enfim, neste sábado (10/10), no Instituto Moreira Salles. Será para pouca gente de cada vez, com agendamento prévio no site do IMS, a fim de garantir todos os protocolos de segurança sanitária.

Em compensação, ficará em cartaz até 21 de fevereiro de 2021, com tempo hábil para que as pessoas possam visitá-la com calma e sem aglomerações. Os amplos espaços da famosa Casa da Gávea permitem uma circulação mais rarefeita, através das cinco salas ocupadas pela exposição. Não haverá itens tocáveis nem manuseáveis, mas em seu lugar apresentaremos mais materiais e teremos projeções em tamanho maior que na versão do Itaú Cultural, em São Paulo.

À falta de uma abertura presencial, o instituto programou uma live com João Moreira Salles, Jordana Berg e este cocurador da exposição em torno do filme Últimas Conversas, montado e concluído respectivamente por Jordana e João após a morte de Coutinho. O filme – um divertido, comovente e às vezes tenso encontro entre o diretor e jovens estudantes do ensino médio – já está disponível no site do IMS até sábado, quando a live se realiza às 18 horas, no canal de Youtube do IMS.

Os interessados em explorar o universo de Eduardo Coutinho podem desde já visitar os sites da Ocupação no Itaú Cultural SP (com muitos vídeos exclusivos) e da Ocupação no IMS-Rio, com detalhes da exposição, textos e outros materiais sobre o homenageado.

A seguir, um texto que publiquei, como curador, no site do IMS.

Coutinho como nunca antes

Não chegamos a ser propriamente amigos, mas minha relação com a obra de Eduardo Coutinho é intensa. Começou em 1984, quando assisti à consagração de Cabra Marcado para Morrer no FestRio. Foi a partir dali que procurei conhecer seus muito diferentes filmes anteriores, longas de ficção e programas do Globo Repórter. Passei a acompanhar sua carreira, mesmo durante os 14 anos em que ela esteve restrita a um certo nicho, antes do revival com Santo Forte.

No set de “Babilônia 2000”, noite de réveillon, com Rosane Nicolau

Na virada do século, lá estava eu cobrindo as filmagens de Babilônia 2000 para um jornal. Quando seu método de documentarista se consolidou com Edifício Master, fui convidado a escrever o livro Eduardo Coutinho: O Homem que Caiu na Real, com que ele foi homenageado num festival português. Um pouco mais tarde, preparei o material de imprensa para Peões e O Fim e o Princípio. Apresentei uma mostra de seus filmes no Canal Brasil e participei com ele das faixas comentadas dos DVDs de Jogo de Cena e Cabra Marcado para Morrer, esta gravada apenas quatro dias antes de seu trágico falecimento.

Mas nada disso se compara ao mergulho que dei nos seus arquivos para a cocuradoria da Ocupação e a preparação do livro Sete Faces de Eduardo Coutinho. Para minha surpresa, sua célebre salinha no Cecip – Centro de Criação de Imagem Popular guardava muita coisa que Coutinho, com seu jeito despojado, não parecia preservar.

Lançamento do livro “Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real” em Portugal, 2003

Lá estavam muitos documentos de filmagem, registros de pesquisa e seleção de personagens, rascunhos de projetos e até redações do seu tempo de colegial. Estavam, sobretudo, seus incontáveis cadernos de anotações, nos quais, desde sempre, dava asas a sua sensibilidade na observação humana e na garimpagem de pessoas com carisma para falar da vida. É bem verdade que sua caligrafia mais se aproximava dos hieróglifos egípcios do que da última Flor do Lácio. Mesmo sem entender a maioria dos garranchos, temos ali o substrato do seu cinema. Toda a gênese de um processo de criação.

Além desse acervo imprescindível, hoje sob a guarda do Instituto Moreira Salles, foram fundamentais as colaborações – memórias, documentos, fotos, objetos – da VideoFilmes, de cinematecas do Rio e de São Paulo, bem como de sua irmã Heloísa Coutinho e de vários amigos e companheiros de trabalho. Assim pudemos oferecer, na exposição e no livro, uma visão inédita de sua obra completa, desde os filmes realizados como aluno do Idhec francês em fins da década de 1950.

Foi nossa intenção – minha e da equipe do Itaú Cultural com que dividi a curadoria – apresentar um novo olhar sobre a trajetória do cineasta. Em lugar de uma cronologia linear, evidenciamos os diálogos entre diversas fases de sua filmografia. Pontuamos temas e constantes que atravessam sua produção em cinema, vídeo, televisão, teatro e textos. A forma como esses suportes se entrelaçam é uma das mais gratas revelações sobre seu trabalho.   

Um Eduardo Coutinho múltiplo, sagaz, inovador e divertido é o que desejamos mostrar ao público com essa Ocupação. 

Gravação da faixa comentada do DVD de “Cabra Marcado para Morrer” (com Eduardo Escorel, João Moreira Salles, José Carlos Avellar, Barbara Rangel e Denilson Campos)

6 comentários sobre “Coutinho como nunca antes

  1. Boa Carlinhos! Isso é o que verdadeiramente se chama de viagem. Claro que vou lá e embarcarei também. Abraços

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