Mais fortes são os poderes do polvo

PROFESSOR POLVO na Netflix

Talvez eu ficasse mais convencido se Professor Polvo (My Octopus Teacher) fosse uma animação na linha de Procurando Nemo. Como documentário, o filme de Pippa Ehrlich e James Reed soou a mim como ficção. A história do cineasta que passa um ano mergulhando num mesmo ponto da África do Sul para cultivar a amizade com um polvo é tão fascinante quanto os melhores filmes sobre o mundo natural. O que pode ter ali de mera fabricação, porém, me deixou inquieto.

Nada contra o uso da linguagem ficcional para dramatizar um documentário, recurso usado desde que Robert Flaherty fingiu registrar práticas que o esquimó Nanook, em 1922, já não usava mais. As cenas de Craig Foster – diretor, produtor e cinegrafista habituado a filmes sobre animais – trocando afagos com a “polva” e seguindo suas aventuras de sobrevivência submarina são de fato cativantes e transmitem um amor sincero pela vida selvagem. Da mesma forma, as descobertas sobre o molusco chamam atenção: o polvo caminha como um bípede no fundo do mar, tem chifres ocasionais e se disfarça nas mais variadas formas para escapar aos predadores.

O enfoque sentimental da Natureza é um exemplo oposto ao cinema de Werner Herzog, que deixou em O Homem Urso sua profissão de fé na impossibilidade de o homem confraternizar com as feras. Craig Foster, ao contrário, faz do polvo uma espécie de “pet” e atribui ao bicho uma afeição semelhante à que ele sente. Na fronteira da fábula, o filme se impõe pela beleza das filmagens subaquáticas, o exotismo das formas marinhas e a perícia com que Craig se aproxima do seu “polvonagem”. Todos amam esses filme, que está na shortlist do Oscar de documentário.

Para mim, ficaram três desconfortos sobre os quais posso estar inteiramente enganado. O primeiro: muito da narrativa enunciada por Craig pode ter sido forjada para dar uma ordenação dramática às imagens incríveis que ele captou. O segundo: todo o tempo ele faz crer que estava sozinho com o seu “professor” na floresta submarina, quando está claro que havia pelo menos mais um cinegrafista com ele. E o mais intrigante de tudo: tive a impressão de ver diversos polvos diferentes no papel de um só. Mas, afinal, quem sou eu para entrar nessas águas?

Trailer com som muito baixo:

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